domingo, 15 de janeiro de 2017

Nem só de … vive a Paulista

“Se a avenida/Exilou seus casarõesQuem reconstruiria/Nossas ilusões?”(Eduardo Gudin)
São carros, ônibus, ambulância, polícia, helicópteros, drones e gente, gente que passa, entra e sai; é papelão, britadeira, conchavo, sexo… e tem metrô, ciclistas e pouca vegetação, mas tem goiaba, laranja, abacates… plantados.
Avenida Paulista: sonho de uma burguesia do século 19 que parece ser comandada por esta mesma, com apoio de outras classes. No dilema, fecha ou não fecha, a avenida se dilacera: menos humanização.
Morador há 25 anos, frequento-a. Há muitos imaginários e símbolos: do capital, dos museus e arte, das cenas políticas, sociais, das compras. Mas tem outras coisas…
De manhã, muito cedo, há o café da manhã oferecido por várias pessoas, sobretudo da Joaquim Eugênio de Lima até a Bernardino de Campos, sentido Paraíso.
Os cafés, servidos em mesas simples, dobráveis, cobertas – pano e plástico –, têm: café, leite, queijo, bolo, pão e bolacha; e às vezes iogurte, mas é raro.
Os vendedores se instalam por volta das cinco da manhã e vão até as nove.
Os clientes: porteiros, funcionários de condomínios, de telemarketing, vigias, seguranças, bombeiros…
“Até gerentes que escapolem” – diz D. Délia, cearense.
De noite, há os bares, lotados de universitários, executivos… de tarde, há a máfia: do papel e papelão, e do lixo reciclável; máfia que se divide em grupos.
Nos dias em que a Paulista é fechada aos carros, em fins de semana, desço, ouço seus frequentadores:
“Meu sonho era morar aqui, como em uma Vieira Souto…mas não posso.” “Esta avenida é como se fosse meu coração, adoro ela.”
“Gosto demais daqui; aqui me sinto em Nova York!”
“Ela resume o Brasil…”
Ando… e vejo vendedores de água, refri, cachorro-quente; busco uma conversa para pegar suas opiniões:
“Oxi, aqui é bom demais! O que a gente vende na Sé por um tanto, aqui se triplica, aqui se paga mais…”
“Moro longe, venho com meu crochê para vender, apuro mais do que no Barro Branco e ainda vejo o povo…”
Perto do Masp muda. Há toalhas, como numa praia – acho bacana – pessoas de bicicletas, crianças patinam, uma até tenta soltar pipa com o pai.

Sento-me com jovens:
“Costumo vir à Paulista às sextas e tomar todas, perto do metrô Consolação. Aqui vem uma galera boa, tem uns louco… Ah! e é bom para skate, aqui pode tudo: bebida, fumo, crack… e tem foda sim, claro! Tarde da noite, entre as sombras”.
“Aqui eu e as mina e o papo, e se enrola aqui e se ri e se tira sarro dos riquinho que se acha dono daqui… Aqui tem de tudo: gay tem muito e são bacanas, se beijam, se roçam. E isso é mulher com mulher, homem com homem e vai…”
“É boa a pegação aqui – diz Du – fim da tarde tem muito cara lindo… e rola, rola, viu, é só arrematar e um motel, hotel ou no rala-rola.”
“Sempre venho aqui nas manifestações, mas hoje é especial, pois é tranquilo. Aqui estão todos os partidos, e se grita, se briga e se ri ou se vai para polícia ou hospital, ah!”
“Sabe o que falta? Uma igreja Universal.”
Encerro por aqui…


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O Rio de Manoel de Barros

Manoel de Barros-1916/2014 


"Ser menino aos trinta anos, que desgraça
Nesta borda do mar de Botafogo!
que vontade de chorar pelos mendigos!
Que vontade de voltar para a fazenda!
Por que deixam um menino que é do mato
Amar o mar com tanta violência? "
Manoel de Barros, Poemas concebidos sem pecado, 1937

O fragmento do poema acima é certificação do Rio, de sua água que ele tanto admirou. Nunca deixou o Rio. Tinha apartamento no Leblon, onde sempre passava alguns meses na cidade até a fragilização de sua saúde.

Nas comemorações dos seus 100 anos de vida, no Rio de Janeiro, a Unirio, por iniciativa do professor Elton de Souza, realizou, nos dias 25 e 26 de novembro,  um evento em homenagem ao escritor. Nada mais justo. Ali ocorreram mesas de debates e depoimentos com os títulos: “Manoel de Barros: uma didática da invenção”; “Poesia é sabedoria que não vem em tomos” e “É preciso transver o mundo”.
Como convidado a integrar a primeira mesa, expus minhas considerações acerca do poeta, sob o título “A poesia como ritual de existência”. Aqui saem alguns fragmentos.
Manoel de Barros morou por trinta anos na cidade do Rio de Janeiro, para onde foi, ainda adolescente fazer ginásio, ensino médio e onde também frequentou Universidade, curso de Direito. Lá, tornou-se conhecido, via seus amigos, como Antônio Houaiss, Millôr Fernandes, Joao Antônio, Fausto Wolff, entre outros, e teve suas primeiras obras publicadas. No Rio o poeta iniciou com afinco suas leituras: leu a obra de Vieira através de seu tutor do colégio Marista, depois mergulhou em outros autores da época, não apenas na literatura ficcional; foi à Filosofia, Psicanálise, Sociologia, Antropologia e por aí vai. Conheceu vários poetas, como Drummond (com quem trocou cartas), Bandeira e outros tantos. Integrou-se ao Partido Comunista Brasileiro, mas depois retirou-se, embora, em seus, poemas aclaram-se suas ideias do coletivo e do povo.
Lá seu olhar sempre esteve no simples, por exemplo os peixeiros, e nas poucas vezes que advogou o fez para eles, via seu sindicato. Voltou para o Mato Grosso, em 1958, para assumir as terras deixadas pelo pai falecido, com o apoio da mulher D. Estela, mineira, que conheceu na cidade e com quem lá se casou.

Poetar para Barros foi reconstruir a vida, ou inventá-la dentro do dia a dia nos seus mais simples olhares, fazer, contemplar e mentir, mentir pela palavra, para dizer mais. A palavra não é abundante, o que a faz como tal é esse ritual de combiná-las, dissecá-las, como um desassufoco; é pô-las pelo avesso, é questionar seu significante é desdizê-la, raspá-la. Seu fazer e seu olhar possuem a coragem de se desequilibrar para encontrar seu equilíbrio possível:

“Não quero saber como as coisas se comportam.
Quero inventar comportamento para as coisas.
Li uma vez que a tarefa mais lídima da poesia é a de equivocar o sentido das palavras.
Não havendo nenhum descomportamento nosso
Senão que alguma experiência linguística
Noto que as vezes sou desvirtuado a pássaros,
que sou desvirtuado em árvores, que sou desvirtuado para as pedras.
Mas que essa mudança de comportamento gental para animal, vegetal ou pedral”
Manoel de Barros, Ensaios Fotográficos,2000

Escrever, caçar a palavra, reformar ou desformar a gramática poética foi seu oficio de existência. Manoel tinha um poder de pensar travessando o erudito e o popular, e assim foi de Heidegger emendar com a frase do Bugre
Peter Pál Pelbart, ao fazer o prólogo de sua tradução de Crítica e Clínica, de Gilles Deleuze, nos apresenta com clareza a questão da literatura que bem cabe para o caso de Barros:

“[...] o problema de escrever: o escritor, como diz Proust, inventa na língua uma nova língua, uma língua de algum modo estrangeira. Ele traz a luz novas potencias gramaticais ou sintáticas. Arrasta a língua para fora de seus sulcos costumeiros, leva-a a delirar. Mas o problema de escrever é também inseparável de um problema de ver e de ouvir: com efeito, quando se cria uma outra língua no interior da língua, a linguagem inteira tende para um limite ‘assintático’, ‘agramatical’, ou que se comunica com seu próprio fora.
O limite não está fora da linguagem, ele é o seu fora: e feito de visões e audições não-linguageiras, mas que só a linguagem torna possíveis”
Gilles Deleuze, Crítica e Clínica, 1997

Nesse caminho o poeta diz e repete em sua obra o seu contexto criador apontando para um logos frágil do homem. Assim, sua salvação é a criação. Diz Manoel de Barros:

Um esforço para ficar inteiro é que é essa atividade poética. Minha poesia é hoje e sempre foi a catação de eus perdidos ofendidos. Sinto quase orgasmo nessa tarefa de refazer-me [...].
Escrevo meus poemas procurando o rumor das palavras mais que o significado dela. Penso que rimo por dentro, e isso; e coisa ínsita, não da matéria, Meu processo de escrever é ir desbastando a palavra até os seus murmúrios e ali encaixar o que tenho em mim de desencontro [...]
Encontro estímulos para escrever em mim mesmo. Na necessidade de ser. Poderia inventar que encontro estímulos no pôr do sol, no beco no amor das pessoas. [...] Escrevo lentamente, todos os dias, tentando ajuntar os pedaços de mim lançados por aí. Ajeito um arremedo do que sou. Escrevo uma pose de mim”
Manoel de Barros,  Conversas por escrito in: Obra completa, 1990


Barros vai aos deslimites do fonema para tingir o simples da palavra na sua complexidade poética, como um catador de cajus que os torra, para obter a sua castanha, e é no fogo com o fruto que ele acredita e espera o surgimento da amêndoa farta - do dentro - do caju, o poema.
Mas me ajuda melhor aqui Elton de Souza:

“atingir o deslimite não significa destruir-se o negar-se. Ao contrário, é limite que destrói a invenção que e pode e se deseja. O deslimite, portanto, é uma experiência com a vida e não com a morte (nos vários sentidos que essa palavra pode ter)”.
Elton de Souza. Manoel de Barros: a poética do deslimite, 2010

O Rio de Janeiro foi um dos seus sabores de águas, entre tantas águas deste Brasil.


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A poesia atual de Maria do Carmo Barreto Campelo de Melo



* Por Paulo Vasconcelos *
Escrevo por fora da palavra
circundo-a como uma ilha.
Tento abordá-la.
Chamo meu próprio nome e estremeço: tenho medo de mim
Que me descubro.
O nome me adere
Me exige 
(Sempre Poesia, Obras Completas, Maria do Carmo Campelo de Melo, 2009)






Sempre se falou da qualidade dos poetas pernambucanos, dentro das chamadas gerações poéticas brasileiras, (classificação que não me atrai muito). Entretanto, Maria do Carmo Campelo de Melo (1924-2008) não se coaduna a isso, nem acataria a designação. Ela está acima disso e equivocaria teóricos.  Sua poesia é de uma atualidade abismal e ela buscou uma escrita de tons existenciais, com o tônus de uma lírica aberta, sem formas clássicas, sendo assim uma palavra de força no território da poética moderna. Esquecida pelo mundo editorial brasileiro, o que é um atentado aos leitores de poesia, suas obras, quando em vida, tinham requinte de edição em todos os aspectos.
Ao lermos Maria do Carmo, sentimos os sabores próximos a um caqui duro de Orides Fontela, aos ventos de Cecília Meireles, os cheiros das terras de Clarice ou das rabanadas de Adélia Prado. Isso se dá no conteúdo. Quanto à forma, ela tem suas particularidades em que  adensando a força da palavra faz uma lírica franciscana – simples, mas exata.
Conheci a poeta num auditório, Recife, nos anos de 1980, em que falava para estudantes e eu não sabia de sua poesia; passei a ler e encantei-me com seu ruído ensurdecido, mas abalador de perguntas e constatações do sujeito na tessitura do viver.
Seu  verso – que me acudia com persistência – era:
 Quem me virá ao encontro/agora que sou EU – eu me escolhendo, eu me sabendo
com a lucidez dos anjos, eu questionando-me/entre o temor de ser e o de não-ser
eu me enlaçando e no projeto de ser me elaborando?/De que surdos gritos me componho
ou nítidos contornos me estruturo/em que pretérita – habito no futuro?
E assim recuo/E ambígua permaneço
Nas Vésperas de mim: não me inauguro.
(Retrato Abstrato, 1990)
Suas obras que de início me ocupei foram: Partitura sem Som (1983) e Retrato Abstrato(1990). Depois vieram as demais, que leio com encantamento maior. Ficou para sempre em meus ouvidos uma lírica que jamais me desacompanha, mesmo com a sua mudez de morte.
Maria do Carmo é um estampido, um pássaro fundo e está entre as mais importantes poetisas pernambucanas e brasileiras. Nasceu em Recife,1924, no bairro da Torre, mas voou para o Rio. Lá, manteve contato com Bandeira, Drummond e outros. Não demorou e logo retornou para cumprir a flechada de ser palavra em Recife, onde morreu em 2008.
Bacharel em Letras Clássicas e Licenciada em Didática de Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia do Recife – local que gerou outros poetas –, pós-graduou-se pela UFPE. Mantinha uma vida dinâmica no campo literário do Recife, atuando como palestrante, professora, gestora nas áreas de artes em geral.
Atuou como jornalista, mas seus gritos foram para o poema, em que soletra e deglute palavras com a maçaroca do sabor da língua em que plenificou sua garganta lírica.
Pertenceu à Academia Pernambucana de Letras, onde ocupou a cadeira nº 29, e, mesmo diante do institucional acadêmico, não se rendeu à simplicidade e seu traço poético simples e denso.
Saltear às vezes entre o religioso e o profano, mas se interligando de modo pleno, como que abjurando, não para as diferenças, seu olhar religioso católico não tornou-a piegas, ao contrário, criou uma liturgia lírica acima disto.
Sua obra é grande e compreende doze livros de poesia, afora outros de prosa. Se a persistência foi na poesia e na prosa, trafegou também pelo jornalismo, em que se descolou bem de sua textualidade.
Dentro de sua obra, alguns aspectos se cindem como elemento comum, o que,  ao meu ver, está em relação à inquirição do poeta ao existencial, à dramaturgia do dia a dia, do homem à procura de si e do outro, com o comedimento poético e linguístico exato, sua lírica tem um fluxo epifânico constante:
Solidões não se somam
bem sabes
apenas ficam lado a lado.
E outra vez diz ela:
Isso que vedes,/não sou Eu
só me antecede/me prepara/que vária e inconclusa
subsisto/e solitária assisto
às muitas mortes de mim.
Isso que vedes/não sou Eu.
…persiste a poeta:
Ambígua e indefinida
transbordo do meu nome:
ele não me contém

ninguém é igual a toda mim.
(Sempre Poesia, 2009)
Há em Maria do Carmo algo de persistente dentro do seu “limite e deslimite”, como se a poesia a “dessufocasse”, ou melhor, o fazia para aliviar-se e nisto constitui sua poesia  renitente, o que nos confirma a própria:
Sou sempre poesia. Continuarei buscando uma linguagem própria através da qual possa cumprir a missão de poeta-decodificar a mensagem muda, o âmago e o labirinto do ser, recriando-o na medida em que o redefine…” (Sempre Poesia, 2009)
Entre os amigos, poetas e intelectuais pernambucanos, não tinha afetações da mulher poeta, nem vômitos intelectuais, dentro da sua grandeza de leitora e admiradora de tantos: Pablo Neruda, Virginia Wolf, Sergio Milliet e do persistente Rainer Maria Rilke.
Estudiosa da Semiótica, face ao campo das letras, tem um poema com o título Semiologia:
Só direi palavras essenciais/o amor é meu conhecimento,/transporei todas as demarcações;/e a sebe de teu jardim/tua armadura de carne.
(Sempre Poesia, Obras Completas 2009)
 Em outro poema, diz ela atraindo palavras para a dramática de ser, e aí se vê de perto o criar e a filosofia, quando a poeta, fincando sua pesquisa estético-poética, fuça o semiológico:
Só às cinco estarei completa./Até lá tento compor-me/e metamorfoses me refaço/Do sempre/e no agora/me elaboro/e nessa trama (em que me tecendo)/me sucedo me componho me transmudo me retraço? Até lá me sobreponho para /hora inaugural? /mas só às cinco estarei completa.
(Ser em Trânsito 1979)
A poetisa lança seu olhar sobre a filosofia, nas suas bases de formação da Faculdade de Filosofia, redizendo Heidegger, Bachelard (nos seus aforismos da Casa), ou, nessa escuta/escrita, como confirma Deleuze nas relações entre a linguagem e a Filosofia.
Confirmando o que se constata, afirmou o poeta Ângelo Monteiro, recifense, em prefácio a sua obra Música do Silêncio II:
A preocupação pela poética vem aliada, nela, a uma preocupação pelo fundamento de toda poética: a própria existencialidade, que anima e a justifica, da qual se nutre e vive Palavra.
(Música do Silêncio 1971)
Ana Flavia Campello de Mello, sua neta, num esforço único, conseguiu, há sete anos, em 2009, reunir suas obras em Sempre Poesia, em que reúne um vasto material sobre a autora com a totalidade de suas obras. Trabalho exaustivo, valeu sim, mas vale reeditar a poetisa com o rigor maior editorial que ela merece e com depoimentos de tantos poetas contemporâneos. A autora merece e nós, que a conhecíamos, pedimos.
*
Paulo Vasconcelos é mestre e doutor pela ECA-USP. Professor de Teoria Literária em universidades privadas e consultor editorial da área de Literatura, além de contista e poeta

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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Natália Ginzburg, 1916 - 1991

O encontro com a vida, um ofício e as Pequenas Virtudes
Natália Ginzburg, 1916 - 1991


Uma vida

Há algumas pessoas que não passam ao lado da vida. Elas vivem, crescem e morrem ao seu lado, questionando a vida, que, ao ser debulhada, ganha contornos de uma obra de arte. Assim, quando dizem, por um ofício, sobretudo o literário, dizem mais e de modo brando, seguro e poético, não como passado, mas como argamassa que lhe constituiu, na artimanha com a linguagem. Assim foi Natália Ginzburg – escritora, poeta, ensaísta, autora de peças teatrais e editora, chegou a deputada dentro do seu país. Nasceu em Palermo, Itália, e é uma dessas mulheres raras na sua literatura e concisão com a vida, mesmo diante de tragédias (fascistas) e passagens pelas duas guerras, junto a si – através do pai, do marido, da família e amigos. Trata os fatos com dores, mas com serenidade, como a da sua escrita.
Sua obra soma mais de uma dezena, mas os leitores brasileiros ainda não se debruçaram sobre a mesma, que não foram traduzidas in totum.
No Brasil, suas obras somam a sete com seu último – As pequenas Virtudes, 2015, Cosacnaify (Le piccole virtú, 1962), cuja tradução de Mauricio Santana é sensível e fiel, jovem que conhece a obra da escritora, e tem intimidade com a língua italiana desde seus trabalhos de mestrado à sua carreira dentro da Literatura Italiana.

O Meu oficio - nas pequenas virtudes

Na obra, a autora oferece ensaios que foram escritos para jornais e revistas, na Itália e em Londres.
A obra é dividida em duas partes. Na primeira, com seis ensaios – dentre os quais destaco três, sem desmerecer os demais –, Natália se debruça sobre vários momentos de sua vida, desde o exílio dentro da própria Itália, em Inverno em Abruzzo, passando pela amizade com Cesare Pavese, no Retrato de um Amigo, em que a autora se desfaz em carinho pelo mesmo, falando de sua jovialidade e seus poemas, e em Ele e eu, no qual se remete à relação com o segundo marido, Gabriele Baldini, suas aproximações e diferenças. Na segunda parte, com cinco textos de natureza mais melancólica, encontra-se o ensaio sobre As pequenas virtudes, em que aborda a educação dos filhos e foca no que se constitui a virtude. Ainda de escrita belíssima e poética, em Silêncio, Natália revela as costas do silêncio e seus encontros com o mesmo dentro da criação literária. Contudo, o que me leva a uma vontade alucinante de aqui escrever é O meu Ofício, sobre o qual Ítalo Calvino diz ser “uma lição de Literatura”, na contracapa de As pequenas virtudes.
Neste ensaio, a autora debruça-se sobre uma espécie de genética de sua escritura. Ali ela cisca, como fazia na juventude, entre as palavras, para dizer os fundamentos de seus discursos e os emanta em sua própria vida, quase como consequência de um ato fisiológico, como bem observou Cesar Garboli, seu amigo e grande crítico Italiano:

Os níveis em que a fisiologia se manifesta e percorre a sua viagem mental se concentram todos na completude do ovo, multiplicando-se e “sucedendo-se” a tal como fazem as vísceras. Em primeiro lugar assiste à transformação o do tema fisiológico em corpo narrativo (trata-se do nível mais simples): o encontro com o mundo, a entrada na vida, o comer, o parir, a composição e o desdobramento da relação carnal com a realidade em um sistema contagioso de relações que são sediadas no próprio corpo... (Garboli apud Ginzburg, p.142, 2015)

Aqui o crítico refina e deslinda a verdade da escrita ginzburguiana, como ato contínuo, muito mais de indagações dos seus impactos com a vida e que, portanto, dá sentido à implosão de sua subjetividade, manifesta na sua escritura, como forma de não sufocar, e esse corpo se manifesta literariamente por sua condição pensante, ela como nos cita e como artifício legítimo se utiliza das estruturas na terceira e primeira pessoa, para assim modalizar a escritura, como ela e um outro.
Em Natália, há vários outros em seu ofício de escritora, sacudindo a memória, as estruturas imaginárias forjadas no seu viver para construir sua obra. E diz Natália:

[...] O fato é que só sei escrever histórias. Se tento escrever um ensaio de crítica, ou um artigo sobre encomenda para um jornal, a coisa sai bem ruim. O que escrevo nesses casos, tenho que ir em busca penosamente fora de mim...E sempre tenho  sensação de enganar o próximo com palavras tomadas de empréstimo ou furtadas aqui e ali. E sofro e me sinto em exílio. Entretanto, quando escrevo histórias, sou como alguém que está em meu País, nas ruas que conhece desde a infância, entre as árvores e os muros que são seus. O meu oficio é escrever histórias, coisas inventadas ou coisas que recordo de minha Vida, mas sempre histórias [...] (Ginzburg, p. 73, 2015)

Ao se colocar assim, ela faz uso da intimidade real, possível, para transgredi-la nas pontas e centro do seu imaginário de modo a constituir brechas da criação, modelando-a como uma espécie de óleo sobre tela abstrato, que pode aos poucos ganhar figuratividade ou não: apenas são pontos, tintas em multiformes apanhados num delito da narração, que contornam uma espécie de pré-roteiro narrativo e que se vai colorindo com outras tintas.
Nada é demarcado, o ponto inicial pode ser tudo: uma frase, um sentir que pede linguagem e assim vai se adequando, apoiado numa vivência existencial por onde se mistura a tudo e daí funda um texto que ela organiza, naturalmente.
Ao falar do seu primeiro conto, ela mostra uma face de sua composição, e assim ela diz que surgem personagens antigos, criaturas ingênuas e ridículas de outra era “Fala de personagens como uma mulher, um homem de barba ruiva e ela não sabe de onde vem, mas adianta, e diz que os toma e pega emprestado palavras frases:

“As palavras e frases de que me servira para eles foram pescadas assim, ao acaso: era como seu tivesse um saco e fosse tirando dele ora uma barba, ora uma cozinheira negra ou outra coisa que pudesse usar...”(Ginzburg,pag 77,2015)

Natália, neste ensaio, oferece uma contribuição aos estudos da criação literária, um depoimento sincero, sem rodeios, com a poesia que sempre carrega e que facilita a aproximação de seu texto. Por sua vez como nos lembra Ettore Finazzi-Agrò, professor italiano e estudioso da Literatura Brasileira, em  O bordado da memória, posfácio de Léxico Familiar, 2009:

Natália escondia “no seu avental” a arma da memória de que se utilizou tantas vezes pra se vingar da história que lhe arrancou o mardo e pôs fim àquela civilização...(Léxico Familiar, 2009,  p.225)

Mas seu estado de ser e sua força não titubeiam a sua estrutura léxica: ela é limpa e seu tradutor nos ajuda. E assim, misturando seus depoimentos, deum espelho, de um molho de tomate, uma semolina, um echarpe, uma colina, ou até mesmo nas entrelinhas um silêncio encravado, enfiado na cara de personagens como Nini, em O caminho que leva à cidade, 1998), ou como seus gatos de Família ( J Olympio, 2003) ou entre seus personagens do Caro Michele, em que o estilo epistolar lacra um silêncio como multifacetas de um ofício de escrever. Ela costumava mastigar as palavras ou frases que a chamavam atenção, para exercer com seu suco o adequado locum frasal: ”Minha veste é escura: Esta também é uma frase que repetir muito tempo para mim, Durante o dia, murmurava estas frases que agradavam tanto.”
O ofício de Natalia é a consolidação de sua vida – o encontro com a vida –, como nos diz Garboli em As pequenas virtudes. E dizê-la as dessufoca e emerge novo oxigênio: dizer sempre refresca...
A autora, ao forjar seus ensaios, o faz com as gomas de sua vida, nos traços tênues de sua linguagem e perscruta intimidade do criador, situando-se em latitudes às vezes até pavesianas, mas com seu próprio tempero.
E, para findar, nessa sua imensidão de humanidade, de trançadeira de bordados italianos en parole, imersos em sua literatura, digo com as palavras de Garboli:

“Escrever, situar-se num ângulo, em ponto oculto do passado, e fazer voar fazer correr por aí afora toda vida que nunca foi nossa.”(Léxico Familar,2009, p.147 As pequenas virtudes)