quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A poesia atual de Maria do Carmo Barreto Campelo de Melo



* Por Paulo Vasconcelos *
Escrevo por fora da palavra
circundo-a como uma ilha.
Tento abordá-la.
Chamo meu próprio nome e estremeço: tenho medo de mim
Que me descubro.
O nome me adere
Me exige 
(Sempre Poesia, Obras Completas, Maria do Carmo Campelo de Melo, 2009)






Sempre se falou da qualidade dos poetas pernambucanos, dentro das chamadas gerações poéticas brasileiras, (classificação que não me atrai muito). Entretanto, Maria do Carmo Campelo de Melo (1924-2008) não se coaduna a isso, nem acataria a designação. Ela está acima disso e equivocaria teóricos.  Sua poesia é de uma atualidade abismal e ela buscou uma escrita de tons existenciais, com o tônus de uma lírica aberta, sem formas clássicas, sendo assim uma palavra de força no território da poética moderna. Esquecida pelo mundo editorial brasileiro, o que é um atentado aos leitores de poesia, suas obras, quando em vida, tinham requinte de edição em todos os aspectos.
Ao lermos Maria do Carmo, sentimos os sabores próximos a um caqui duro de Orides Fontela, aos ventos de Cecília Meireles, os cheiros das terras de Clarice ou das rabanadas de Adélia Prado. Isso se dá no conteúdo. Quanto à forma, ela tem suas particularidades em que  adensando a força da palavra faz uma lírica franciscana – simples, mas exata.
Conheci a poeta num auditório, Recife, nos anos de 1980, em que falava para estudantes e eu não sabia de sua poesia; passei a ler e encantei-me com seu ruído ensurdecido, mas abalador de perguntas e constatações do sujeito na tessitura do viver.
Seu  verso – que me acudia com persistência – era:
 Quem me virá ao encontro/agora que sou EU – eu me escolhendo, eu me sabendo
com a lucidez dos anjos, eu questionando-me/entre o temor de ser e o de não-ser
eu me enlaçando e no projeto de ser me elaborando?/De que surdos gritos me componho
ou nítidos contornos me estruturo/em que pretérita – habito no futuro?
E assim recuo/E ambígua permaneço
Nas Vésperas de mim: não me inauguro.
(Retrato Abstrato, 1990)
Suas obras que de início me ocupei foram: Partitura sem Som (1983) e Retrato Abstrato(1990). Depois vieram as demais, que leio com encantamento maior. Ficou para sempre em meus ouvidos uma lírica que jamais me desacompanha, mesmo com a sua mudez de morte.
Maria do Carmo é um estampido, um pássaro fundo e está entre as mais importantes poetisas pernambucanas e brasileiras. Nasceu em Recife,1924, no bairro da Torre, mas voou para o Rio. Lá, manteve contato com Bandeira, Drummond e outros. Não demorou e logo retornou para cumprir a flechada de ser palavra em Recife, onde morreu em 2008.
Bacharel em Letras Clássicas e Licenciada em Didática de Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia do Recife – local que gerou outros poetas –, pós-graduou-se pela UFPE. Mantinha uma vida dinâmica no campo literário do Recife, atuando como palestrante, professora, gestora nas áreas de artes em geral.
Atuou como jornalista, mas seus gritos foram para o poema, em que soletra e deglute palavras com a maçaroca do sabor da língua em que plenificou sua garganta lírica.
Pertenceu à Academia Pernambucana de Letras, onde ocupou a cadeira nº 29, e, mesmo diante do institucional acadêmico, não se rendeu à simplicidade e seu traço poético simples e denso.
Saltear às vezes entre o religioso e o profano, mas se interligando de modo pleno, como que abjurando, não para as diferenças, seu olhar religioso católico não tornou-a piegas, ao contrário, criou uma liturgia lírica acima disto.
Sua obra é grande e compreende doze livros de poesia, afora outros de prosa. Se a persistência foi na poesia e na prosa, trafegou também pelo jornalismo, em que se descolou bem de sua textualidade.
Dentro de sua obra, alguns aspectos se cindem como elemento comum, o que,  ao meu ver, está em relação à inquirição do poeta ao existencial, à dramaturgia do dia a dia, do homem à procura de si e do outro, com o comedimento poético e linguístico exato, sua lírica tem um fluxo epifânico constante:
Solidões não se somam
bem sabes
apenas ficam lado a lado.
E outra vez diz ela:
Isso que vedes,/não sou Eu
só me antecede/me prepara/que vária e inconclusa
subsisto/e solitária assisto
às muitas mortes de mim.
Isso que vedes/não sou Eu.
…persiste a poeta:
Ambígua e indefinida
transbordo do meu nome:
ele não me contém

ninguém é igual a toda mim.
(Sempre Poesia, 2009)
Há em Maria do Carmo algo de persistente dentro do seu “limite e deslimite”, como se a poesia a “dessufocasse”, ou melhor, o fazia para aliviar-se e nisto constitui sua poesia  renitente, o que nos confirma a própria:
Sou sempre poesia. Continuarei buscando uma linguagem própria através da qual possa cumprir a missão de poeta-decodificar a mensagem muda, o âmago e o labirinto do ser, recriando-o na medida em que o redefine…” (Sempre Poesia, 2009)
Entre os amigos, poetas e intelectuais pernambucanos, não tinha afetações da mulher poeta, nem vômitos intelectuais, dentro da sua grandeza de leitora e admiradora de tantos: Pablo Neruda, Virginia Wolf, Sergio Milliet e do persistente Rainer Maria Rilke.
Estudiosa da Semiótica, face ao campo das letras, tem um poema com o título Semiologia:
Só direi palavras essenciais/o amor é meu conhecimento,/transporei todas as demarcações;/e a sebe de teu jardim/tua armadura de carne.
(Sempre Poesia, Obras Completas 2009)
 Em outro poema, diz ela atraindo palavras para a dramática de ser, e aí se vê de perto o criar e a filosofia, quando a poeta, fincando sua pesquisa estético-poética, fuça o semiológico:
Só às cinco estarei completa./Até lá tento compor-me/e metamorfoses me refaço/Do sempre/e no agora/me elaboro/e nessa trama (em que me tecendo)/me sucedo me componho me transmudo me retraço? Até lá me sobreponho para /hora inaugural? /mas só às cinco estarei completa.
(Ser em Trânsito 1979)
A poetisa lança seu olhar sobre a filosofia, nas suas bases de formação da Faculdade de Filosofia, redizendo Heidegger, Bachelard (nos seus aforismos da Casa), ou, nessa escuta/escrita, como confirma Deleuze nas relações entre a linguagem e a Filosofia.
Confirmando o que se constata, afirmou o poeta Ângelo Monteiro, recifense, em prefácio a sua obra Música do Silêncio II:
A preocupação pela poética vem aliada, nela, a uma preocupação pelo fundamento de toda poética: a própria existencialidade, que anima e a justifica, da qual se nutre e vive Palavra.
(Música do Silêncio 1971)
Ana Flavia Campello de Mello, sua neta, num esforço único, conseguiu, há sete anos, em 2009, reunir suas obras em Sempre Poesia, em que reúne um vasto material sobre a autora com a totalidade de suas obras. Trabalho exaustivo, valeu sim, mas vale reeditar a poetisa com o rigor maior editorial que ela merece e com depoimentos de tantos poetas contemporâneos. A autora merece e nós, que a conhecíamos, pedimos.
*
Paulo Vasconcelos é mestre e doutor pela ECA-USP. Professor de Teoria Literária em universidades privadas e consultor editorial da área de Literatura, além de contista e poeta

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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Natália Ginzburg, 1916 - 1991

O encontro com a vida, um ofício e as Pequenas Virtudes
Natália Ginzburg, 1916 - 1991


Uma vida

Há algumas pessoas que não passam ao lado da vida. Elas vivem, crescem e morrem ao seu lado, questionando a vida, que, ao ser debulhada, ganha contornos de uma obra de arte. Assim, quando dizem, por um ofício, sobretudo o literário, dizem mais e de modo brando, seguro e poético, não como passado, mas como argamassa que lhe constituiu, na artimanha com a linguagem. Assim foi Natália Ginzburg – escritora, poeta, ensaísta, autora de peças teatrais e editora, chegou a deputada dentro do seu país. Nasceu em Palermo, Itália, e é uma dessas mulheres raras na sua literatura e concisão com a vida, mesmo diante de tragédias (fascistas) e passagens pelas duas guerras, junto a si – através do pai, do marido, da família e amigos. Trata os fatos com dores, mas com serenidade, como a da sua escrita.
Sua obra soma mais de uma dezena, mas os leitores brasileiros ainda não se debruçaram sobre a mesma, que não foram traduzidas in totum.
No Brasil, suas obras somam a sete com seu último – As pequenas Virtudes, 2015, Cosacnaify (Le piccole virtú, 1962), cuja tradução de Mauricio Santana é sensível e fiel, jovem que conhece a obra da escritora, e tem intimidade com a língua italiana desde seus trabalhos de mestrado à sua carreira dentro da Literatura Italiana.

O Meu oficio - nas pequenas virtudes

Na obra, a autora oferece ensaios que foram escritos para jornais e revistas, na Itália e em Londres.
A obra é dividida em duas partes. Na primeira, com seis ensaios – dentre os quais destaco três, sem desmerecer os demais –, Natália se debruça sobre vários momentos de sua vida, desde o exílio dentro da própria Itália, em Inverno em Abruzzo, passando pela amizade com Cesare Pavese, no Retrato de um Amigo, em que a autora se desfaz em carinho pelo mesmo, falando de sua jovialidade e seus poemas, e em Ele e eu, no qual se remete à relação com o segundo marido, Gabriele Baldini, suas aproximações e diferenças. Na segunda parte, com cinco textos de natureza mais melancólica, encontra-se o ensaio sobre As pequenas virtudes, em que aborda a educação dos filhos e foca no que se constitui a virtude. Ainda de escrita belíssima e poética, em Silêncio, Natália revela as costas do silêncio e seus encontros com o mesmo dentro da criação literária. Contudo, o que me leva a uma vontade alucinante de aqui escrever é O meu Ofício, sobre o qual Ítalo Calvino diz ser “uma lição de Literatura”, na contracapa de As pequenas virtudes.
Neste ensaio, a autora debruça-se sobre uma espécie de genética de sua escritura. Ali ela cisca, como fazia na juventude, entre as palavras, para dizer os fundamentos de seus discursos e os emanta em sua própria vida, quase como consequência de um ato fisiológico, como bem observou Cesar Garboli, seu amigo e grande crítico Italiano:

Os níveis em que a fisiologia se manifesta e percorre a sua viagem mental se concentram todos na completude do ovo, multiplicando-se e “sucedendo-se” a tal como fazem as vísceras. Em primeiro lugar assiste à transformação o do tema fisiológico em corpo narrativo (trata-se do nível mais simples): o encontro com o mundo, a entrada na vida, o comer, o parir, a composição e o desdobramento da relação carnal com a realidade em um sistema contagioso de relações que são sediadas no próprio corpo... (Garboli apud Ginzburg, p.142, 2015)

Aqui o crítico refina e deslinda a verdade da escrita ginzburguiana, como ato contínuo, muito mais de indagações dos seus impactos com a vida e que, portanto, dá sentido à implosão de sua subjetividade, manifesta na sua escritura, como forma de não sufocar, e esse corpo se manifesta literariamente por sua condição pensante, ela como nos cita e como artifício legítimo se utiliza das estruturas na terceira e primeira pessoa, para assim modalizar a escritura, como ela e um outro.
Em Natália, há vários outros em seu ofício de escritora, sacudindo a memória, as estruturas imaginárias forjadas no seu viver para construir sua obra. E diz Natália:

[...] O fato é que só sei escrever histórias. Se tento escrever um ensaio de crítica, ou um artigo sobre encomenda para um jornal, a coisa sai bem ruim. O que escrevo nesses casos, tenho que ir em busca penosamente fora de mim...E sempre tenho  sensação de enganar o próximo com palavras tomadas de empréstimo ou furtadas aqui e ali. E sofro e me sinto em exílio. Entretanto, quando escrevo histórias, sou como alguém que está em meu País, nas ruas que conhece desde a infância, entre as árvores e os muros que são seus. O meu oficio é escrever histórias, coisas inventadas ou coisas que recordo de minha Vida, mas sempre histórias [...] (Ginzburg, p. 73, 2015)

Ao se colocar assim, ela faz uso da intimidade real, possível, para transgredi-la nas pontas e centro do seu imaginário de modo a constituir brechas da criação, modelando-a como uma espécie de óleo sobre tela abstrato, que pode aos poucos ganhar figuratividade ou não: apenas são pontos, tintas em multiformes apanhados num delito da narração, que contornam uma espécie de pré-roteiro narrativo e que se vai colorindo com outras tintas.
Nada é demarcado, o ponto inicial pode ser tudo: uma frase, um sentir que pede linguagem e assim vai se adequando, apoiado numa vivência existencial por onde se mistura a tudo e daí funda um texto que ela organiza, naturalmente.
Ao falar do seu primeiro conto, ela mostra uma face de sua composição, e assim ela diz que surgem personagens antigos, criaturas ingênuas e ridículas de outra era “Fala de personagens como uma mulher, um homem de barba ruiva e ela não sabe de onde vem, mas adianta, e diz que os toma e pega emprestado palavras frases:

“As palavras e frases de que me servira para eles foram pescadas assim, ao acaso: era como seu tivesse um saco e fosse tirando dele ora uma barba, ora uma cozinheira negra ou outra coisa que pudesse usar...”(Ginzburg,pag 77,2015)

Natália, neste ensaio, oferece uma contribuição aos estudos da criação literária, um depoimento sincero, sem rodeios, com a poesia que sempre carrega e que facilita a aproximação de seu texto. Por sua vez como nos lembra Ettore Finazzi-Agrò, professor italiano e estudioso da Literatura Brasileira, em  O bordado da memória, posfácio de Léxico Familiar, 2009:

Natália escondia “no seu avental” a arma da memória de que se utilizou tantas vezes pra se vingar da história que lhe arrancou o mardo e pôs fim àquela civilização...(Léxico Familiar, 2009,  p.225)

Mas seu estado de ser e sua força não titubeiam a sua estrutura léxica: ela é limpa e seu tradutor nos ajuda. E assim, misturando seus depoimentos, deum espelho, de um molho de tomate, uma semolina, um echarpe, uma colina, ou até mesmo nas entrelinhas um silêncio encravado, enfiado na cara de personagens como Nini, em O caminho que leva à cidade, 1998), ou como seus gatos de Família ( J Olympio, 2003) ou entre seus personagens do Caro Michele, em que o estilo epistolar lacra um silêncio como multifacetas de um ofício de escrever. Ela costumava mastigar as palavras ou frases que a chamavam atenção, para exercer com seu suco o adequado locum frasal: ”Minha veste é escura: Esta também é uma frase que repetir muito tempo para mim, Durante o dia, murmurava estas frases que agradavam tanto.”
O ofício de Natalia é a consolidação de sua vida – o encontro com a vida –, como nos diz Garboli em As pequenas virtudes. E dizê-la as dessufoca e emerge novo oxigênio: dizer sempre refresca...
A autora, ao forjar seus ensaios, o faz com as gomas de sua vida, nos traços tênues de sua linguagem e perscruta intimidade do criador, situando-se em latitudes às vezes até pavesianas, mas com seu próprio tempero.
E, para findar, nessa sua imensidão de humanidade, de trançadeira de bordados italianos en parole, imersos em sua literatura, digo com as palavras de Garboli:

“Escrever, situar-se num ângulo, em ponto oculto do passado, e fazer voar fazer correr por aí afora toda vida que nunca foi nossa.”(Léxico Familar,2009, p.147 As pequenas virtudes)



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Manoel de Barros: uma didática da invenção


Mas para tal intento, convidei outro escritor escondido, que deixa o estilo de poeta transparecer em suas obras de filosofia e outras áreas: meu colega e amigo Elton Luiz Leite de Souza, que escreveu um estudo raro sobre nosso saudoso inventor: Manuel de Barros: a Poética do Deslimite (7letras/FAPERJ, 2010). Assim principia Elton:
“Em anos recentes, já com mais de 80 anos, uma ideia foi apresentada a Manoel de Barros: poeticamente, escrever uma memória. Afinal, muito o poeta já havia vivido e escrito. Sua fértil longevidade pedia mais do que uma memória, seriam três memórias: da infância, da vida adulta e da velhice. O projeto consistia em três memórias. Elas seriam escritas uma a uma, com intervalos regulares de tempo, e seguiriam uma ordem cronológica com começo, meio e fim, tal como supomos ser a lógica da vida. A primeira memória, a da infância, veio ao mundo. Ela surgiu expressa em um ‘inauguramento de falas’ (Gramática Expositiva do Chão, Civilização Brasileira). Essa memória nasceu singular e múltipla, pois o poeta fala não apenas de uma, mas de três infâncias. Sim, o poeta em seus deslimites poético-existenciais teve não uma, mas três infâncias. E cada uma mereceu um livro: a primeira infância, a segunda infância e a terceira infância. Porém, engana-se quem se fia em cronologias. A primeira infância não é mais infância do que a segunda e a terceira. Há apenas uma infância, e esta é múltipla, heterogênea, inumerável. O poeta, diz Manoel de Barros, é aquele que ‘vai até a infância e volta’. E aquele que vai não é o mesmo que retorna (Encontros: Manuel de Barros, Azougue).
Enfim, vieram ao mundo as três infâncias. Como as memórias da vida adulta e da velhice não nasciam, o poeta foi indagado a respeito, no que respondeu: ‘só tive infância’. Ele diz que em seu lápis, na ponta do seu lápis, ‘há apenas nascimento’, ‘só narro meus nascimentos’. A ‘velhez não tem embrião’. A velhez não é propriamente uma idade, mas a impossibilidade de se perceber como ‘forma em rascunho’, como minadouro de sentidos. A palavra que apenas informa tem essa velhez, uma vez que para o jornal de amanhã, para a
vida de amanhã, ela já será cadáver: ‘A palavra até hoje me encontra na infância’.
No poema ‘Invenção’ (Memórias Inventadas, Planeta), o poeta dialoga com um menino que nasceu do seu lápis: ‘Inventei um menino levado da breca para me ser’, diz o poeta, ‘passarinhos botavam primaveras em suas palavras’, ‘(…) ao fim me falou que ele não fora inventado por esse cara poeta/ porque fui eu que inventei ele’. O ‘eu’ deste último verso não é um eu lírico, ele é um sujeito coletivo como lugar da invenção. Ele é o ‘eu’ do menino que o poeta inventou para (re)inventá-lo, empoemá-lo (O Guardador de Águas, Art Editora), enfim, para terapeutá-lo (Livro sobre Nada, Record).
O menino disse ao poeta enquanto o poeta o inventava: sou eu que te invento poeta, enquanto você me inventa. Esse menino, diz o poeta, é ‘a criança que me escreve’. O menino inventa o poeta para que este (re)invente não apenas nossas palavras, mas igualmente nossas maneiras de ver e sentir o mundo: ‘A liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças’, como exercício de ser criança.
Segundo Manoel de Barros, o poeta é aquele que possui visão fontana (Concerto a Céu Aberto para Solos de Aves, Record), uma visão que é fonte do que vê. É uma ‘visão comungante’. A visão assim compreendida é ‘um ato poético do olhar’(Menino do Mato, LeYa), pois ‘o que dá dimensão às coisas é primeiro a alma, o olho da alma’. Não
é uma visão que constata o referente ou objeto; diferente- mente, ela é uma visão que vê, antes, o sentido – que é a alma das coisas: ‘beleza e glória das coisas o olho é que põe’, uma vez que ‘é pelo olho que o homem floresce’(Livro de Pré-Coisas, Record). As águas que brotam da fonte do poeta têm só um nome: amor. ‘Se a gente não der o amor ele apo- drece em nós’. E o poeta é aquele que diz ‘eu-te-amo para todas as coisas.’ É esse elemento que está em tudo, e que é a Vida de tudo em processo, é este elemento o que o poeta vê e sente, primeiro nele, como metamorfose e encantamento.
No poema ‘Escova’, Manoel de Barros diz ter visto, quando criança, dois homens ‘escovando osso’. Isso o afetou singularmente. Tempos depois, ele soube o nome do que aqueles homens estavam fazendo: eles faziam ‘arqueologia’, eles eram ‘arqueólogos’: ‘No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor’. Desse aprendizado ele inventou outro, pois o poeta diz que aprendeu a fazer algo semelhante, só que com as palavras. Ele aprendeu a ‘escovar’ as palavras. Escovar as palavras é também escovar nossas mentes e maneiras de perceber, para assim limpar delas os clichês. Escovar palavras e mentes é ‘empoemar-se’. Por isso, ler Manoel de Barros é empoemar-se. E isso não se faz sem alegria.
A primeira vez que ouvi falar de Manoel de Barros foi em uma aula de filosofia ministrada por um professor pelo qual eu tinha uma imensa admiração, o filósofo Claudio Ulpiano. Este citou um verso do poeta para ilustrar uma ideia da filosofia. Eu tinha pouco mais de 20 anos. Uma outra pessoa ‘desabriu em mim’. Nunca mais parei de comungar com seus versos, seus pensamentos, suas visões comungantes. Ele me terapeutou. Parte dessa ‘terapia’ foi me curar de uma propensão acadêmica de pouco olhar para o Brasil. Ficamos com os olhos teóricos na França, na Alemanha… e não vemos o nosso quintal. O poeta me ensinou a ‘desaprender os saberes que vêm em tomos’. Dessa terapia verbal, ousei escrever um livro sobre o poeta. O próprio poeta foi meu primeiro leitor, pois enviei os rascunhos, as ‘formas em rascunhos’, para ele. Eu pedia sua autorização para publicação. Obtive o endereço do poeta com sua filha, a Martha Barros, em 2008. Ela me orientou a não telefonar para ele e muito menos escrever-lhe e-mails. Eu deveria escrever para o poeta à mão, pois assim ele veria, além da letra, o espírito. Fiz o recomendado.

Enquanto não vinha a resposta do poeta, fiquei com o coração na mão. Um dia, recebi uma carta com letrinha miudinha, parecendo caminho de formiga. Com generosidade e atenção, ele autorizou a publicação do livro. ‘Voei fora da asa’ de tanta alegria. No livro, foram com essas simples palavras que terminei a apresentação que fiz do querido e inestimável poeta: ‘Mais do que um poeta, Manoel de Barros é um pensador, um pensador brasileiro. Empregamos aqui ‘brasileiro’ no sentido mais genuíno e rico que esta palavra pode ter, pois ser brasileiro é ser, em essência, ‘mestiço’.
Não nos referimos, claro, a uma mestiçagem baseada em cores de pele, mas na mistura singular de almas heterogêneas que fazem nascer em uma única alma a capa- cidade de falar e sentir por muitas. Só a mestiçagem de almas pode dar nasci- mento a um estilo ao mesmo tempo singular e plural, poético e filosófico, autóctone e estrangeiro’(Manoel de Barros: a Poética do Deslimite).”
Taí, o Elton que fala e “poema” ao escandir conceitualmente a poesia do Manoel. Outra colega também escreveu sobre o poeta − Marinei Almeida, professora pesquisadora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat): “É assim que ele, Manoel de Barros, nos autoriza pensar: o dia envelheceu e o grande poeta das coisas inventadas, das infâncias, do voo fora da asa, das crianças e dos bichos curvou-se para dentro de seu recolhi- mento, para dentro de sua casca de caramujo, pois, um grande poeta nunca morre. Manoel de Barros continua vivo por meio de seus mais de 27 livros publicados e festejados em uma carreira cuja duração de mais de sete anos assinala a construção de mundos por meio da linguagem poética”.

No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro. (“A Arte de Infantilizar Formigas”, em Livro sobre Nada)

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