segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Guimarães Rosa - Entrevista RARA em Berlim (1962)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

[NocauteTV] Discurso de Raduan Nassar contra o golpe na entrega do Prêmi...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

DISCURSO DO ESCRITOR RADUAN NASSAR -NA ÍNTEGRA-Prêmio Camões


"Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.
Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.
Saudações a todos os convidados.
Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.
Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.
Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.
Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.
Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.
Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.
Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.
Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.
Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas
É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.
O golpe estava consumado!
Não há como ficar calado.
Obrigado"

Raduan Nassar afronta Roberto Freire e esculhamba governo ao receber o prêmio Camões

por  FORUM com Informações de Camila Moraes do El País

http://www.revistaforum.com.br/2017/02/17/raduan-nassar-afronta-roberto-freire-e-esculhamba-governo-ao-receber-o-premio-camoes/

Raduan foi convocado na manhã desta terça-feira ao Museu Lasar Segall, em São Paulo, para receber o Prêmio Camões de 2016 – entregue a cada ano pelos governos de Brasil e de Portugal a escritores expressivos da língua portuguesa. Aproveitou a oportunidade para esculhambar o governo Temer. Ministro da Cultura, Roberto Freire, tentou responder, mas foi vaiado pelo público.

Um dos maiores escritores brasileiros, o paulista Raduan Nassar, professa que aposentou a caneta há mais de 30 anos, mas demonstra que não a força de sua voz. Autor de romances seminais da literatura brasileira, Lavoura Arcaica e Um copo de cólera, Raduan foi convocado na manhã desta terça-feira ao Museu Lasar Segall, em São Paulo, para receber o Prêmio Camões de 2016 – entregue a cada ano pelos governos de Brasil e de Portugal a escritores expressivos da língua portuguesa. Direto, ainda que polido, ele aproveitou a oportunidade para se manifestar contra o Governo de Michel Temer, referindo-se a ele como “repressor”.
O que era para ser uma homenagem à sua obra foi transformado pelo próprio escritor em um pequeno e contundente ato de protesto. Com isso, despertou reações acaloradas não só do público presente, mas sobretudo do ministro de Cultura Roberto Freire, presente no ato ao lado do embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral, e de Helena Severo, presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
O discurso de Raduan foi forte, ainda que breve. Depois de confessar “dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri” e agradecer a Portugal, o escritor disse que “infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil” e que “vivemos tempos sombrios, muito sombrios”. Sua fala fez menção a episódios recentes da agitada vida política nacional, como a “invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo”, a “invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados” e a “violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua”. “Episódios perpetrados por Alexandre de Moraes”, a quem o escritor se referiu como “figura exótica indicada agora para o Supremo Tribunal Federal”. Ao STF, Raduan dirigiu duras críticas, questionando a nomeação do ministro Moreira Franco, citado na Operação Lava Jato, e recordando, por comparação, o imbróglio em torno da nomeação de Lula à Casa Civil em 2015.
As reações dos presentes foram imediatas e se acirraram quando, depois da fala de Jorge Cabral, o ministro Roberto Freire deixou de lado o discurso que trazia impresso para “lamentar”, como disse, o ocorrido. “O Brasil de hoje assiste perplexo a algumas pessoas da nossa geração, que têm o privilégio de dar exemplos e que viveram um efetivo golpe nos anos 60 do século passado, e que dão exatamente o inverso”, reagiu. Diante de gritos e vaias e da interrupção da sua intervenção algumas vezes por alguns dos presentes, o ministro reagiu dizendo que “é fácil fazer protesto em momentos de governo democrático como o atual” e que “quem dá prêmio a adversário político não é a ditadura!”.
Diante da declaração de Freire de que “é um adversário político do Governo recebendo um prêmio do Governo que ele considera ilegítimo”, escritores presentes no evento ressaltaram que o Prêmio Camões 2016 foi anunciado em maio de 2016, quando o impeachment ainda não havia sido concluído. “É preciso ressaltar que ele aceitou o prêmio em maio do ano passado, quando o Governo ainda era o de Dilma Rousseff”, destacou Milton Hatoum. Segundo o escritor amazonense, autor do premiado romance Dois irmãos, entre outros, o governo atual “adiou por muito tempo a entrega desse prêmio, justamente por medo dessa repercussão”. No meio, o discurso político de Nassar – que se manifestou contra o impeachment anteriormente – já era esperado por todos.
Ao final da premiação, muitas pessoas procuraram Raduan Nassar para parabenizá-lo pela honraria e também por suas palavras. Houve também quem se dirigisse “envergonhado” à equipe do ministro, que deixou o museu poucos minutos depois de intervir, e também aos assessores do embaixador português com pedidos de “desculpas”. Discreto, Nassar, à sua vez, conclui que “não há como ficar calado”.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Um leitor da cidade por Revista Brasileiros


Amante da Biblioteca Mário de Andrade, o sr. Apolônio, personagem veterano de São Paulo, acredita no ditado: só é paulistano quem sobe a Consolação chorando

Foto: Maurício Pisani

Invento passeios, mas sempre vou pelo centro de São Paulo, catando prosas novas e antigas, ruas em que andei, vivi, trabalhei. Olhos as roupas dos passantes, vejo a cor do dia e das lojas. Tomo o metrô e desço na estação República, de onde logo me deparo com a Av. São Luís e meus olhos “se abuticam” com a Biblioteca Mário de Andrade. Entro vejo, consulto, falo com os funcionários, cumprimento as mesas, as esculturas, leio um pouco, e resolvo tomar algo, na praça ao lado, D. José Gaspar. Cumprimento os engraxates, já rareando na cidade.
Havia um que era compositor – Antonio Silva. Morreu, segundo soube. Ele era demais; entre um cliente e outro fazia crochê, mesmo com os senões dos amigos. Saudade, boa prosa ele tinha. Sento-me no bar onde imagino ter vinho e tem uma vista verde. Ao sentar, devo ter pensado alto: será que aqui tem vinho? Logo respondem: – Tem sim, estou tomando, vale a pena. Chamo o garçom, um boliviano, com português correto, gentil, peço uma taça e a tomo com o novo amigo.
Seu nome: Sr. Apolônio. Deve ter uns 75 anos, vestido a rigor, terno e gravata borboleta. Diz que costuma vir pouco em São Paulo, pois vive em Araraquara, onde os pais moraram. Aqui na Mooca ele nasceu e viveu um tempo. Filho de uma cearense e um argentino, neto de paraguaios, foi cerzidor, alfaiate de escritores. O varejo era cerzir, sobretudo nos invernos, velhos cachecóis, e pulôveres. Não se comprava à toa como hoje. Daí voltou para o interior. Agora vem para ver a filha, que mora na Av. São Luís, casada com um inglês.
- Gosto daqui, diz ele. Revejo a cidade e amigos vivos. Hoje querem que se leia mais e não se fala em bibliotecas; pergunte se sabem quem foi D. José Gaspar? Duvido que saibam… um arcebispo da cidade… Será que veem as esculturas de Camões, Dante, Goethe? A biblioteca Mário de Andrade, segunda maior do país, onde tinha salas para estudar instrumentos musicais… Pois bem, nem entram nela. Ela está um colosso, ah! Ninguém sabe que ela fica na Rua da Consolação; aliás disseram, logo que vim morar aqui, que só se é paulistano se subir a Consolação chorando.
Pergunto o que tem lido, fala-me dos clássicos portugueses, alemães, italianos e destaca-me novos – que não conheço – mas diz:
- Ainda estou em Clarice, Aníbal Machado, Mário de Andrade e minha Orides Fontela, com quem proseei e foi injustiçada. Ah, sim, de Machado de Assis dei um tempo.
Perguntou-me o que eu fazia, disse-lhe que era professor universitário aposentado. Em resposta, falou-me que deu sorte em encontrar alguém para ouvir e ser ouvido. Recitou versos de Orides, “toda palavra é crueldade”, entremeou com os de Mário de Andrade, Cecília, Vinicius, Zé Régio e, por fim, despedimo-nos. Ele tirou do bolso uma bola de gude com seu nome gravado. Dei-lhe um cartão e resolvi subir a Consolação. E estava chorando…
Será que já sou paulistano ou toda palavra é mesmo crueldade?
Link curto: http://brasileiros.com.br/LjbTO

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Entrevista | Leyla Perrone-Moisés A literatura em perigo by Revista Cândido


Revista Cândido  - Clique no Título e vá ao link originaL .. Revista Cândido
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Em um primeiro momento, Mutações da literatura no século XXI pode soar como um muro de lamentações sobre a irrelevância da literatura no mundo atual. A começar por uma falta de consenso sobre o que é literatura — realçada logo na apresentação do livro —, a professora e crítica Leyla Perrone-Moisés traz à tona uma série de temas pessimistas sobre o momento e a recepção da escrita de ficção: o declínio do prestigio social e cultural da literatura, a perda de importância da matéria nos currículos escolares e universitários e a derrocada da crítica em tempos de internet, entre outros.

Mas a partir da segunda parte do livro, intitulada “A narrativa contemporânea”, Mutações mostra como a chama da literatura se mantém viva por meio da obra de diversos autores de nosso tempo, que não jogaram a toalha mesmo com todas as perspectivas desfavoráveis e as teorias conspiratórias (a do fim do romance tem sido a mais recorrente). Os ensaios trazem análises sobre grandes autores contemporâneos — de Ian McEwan a W.G. Sebald — e temas instigantes, como “Os escritores como personagens de ficção” e “A volta do romanção”.

Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Leyla Perrone-Moisés é autora de outros livros de ensaios, como Inútil poesia e Altas literaturas, obras que mesmo escritas por uma acadêmica, passam longe de qualquer hermetismo. Nesta entrevista a autora comenta algumas das questões mais pertinentes de seu mais recente livro, como a influência da internet no cenário literário e subgêneros como a autoficção.


Entre as tantas indagações feitas ao longo de Mutações da literatura no século XXI, talvez a pergunta que possa resumir o livro é: “O homem do nosso tempo, com todas as implicações sociais e de comportamento que estão ocorrendo, ainda precisa da literatura?” Precisa?

Precisa, embora a maioria pense que não. Precisa, justamente para ter um comportamento menos dispersivo e mais reflexivo. Para saber quem é, para entender os outros homens e o que fazemos todos juntos no mundo. No século passado, Sartre escreveu: “O mundo pode passar muito bem sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem”. Essa advertência tornou-se ainda mais pertinente em nosso século.

No capítulo “A nova teoria do romance”, a senhora diz que o nouveau roman francês, apesar de curto, foi o último movimento a apresentar “propostas teóricas relevantes para a renovação do gênero”. A senhora acredita que depois das vanguardas, ainda há possibilidade de o romance se renovar esteticamente? Os escritores deveriam estar preocupados com isso?

De modo geral, verifica-se atualmente um retorno à forma tradicional que o romance assumiu no século XIX: contar histórias e criar personagens que representem a sociedade contemporânea. Ilustrado com descrições, diálogos e enriquecido com intervenções do narrador. Afinal, essa forma tradicional continua sendo muito poderosa. O cinema e as séries televisivas a têm adotado com grande êxito. Somente alguns poucos escritores, mundo afora, continuam preocupados com a renovação estética da ficção escrita. É o que chamei de “literatura exigente”, destinada a um público restrito. Mas ninguém deve dizer com o quê os escritores devem se preocupar. São eles que fazem a literatura, e felizmente vários deles continuam a honrá-la.

“A visão de conjunto de nosso país não se encontra em nenhum
romance brasileiro. Ela nos foi fornecida, via televisão,
pela Câmara e pelo Senado nas votações de 2016.”


Ainda em relação à renovação do romance, esse seria um dos fatores preponderantes à falta de relevância da literatura nos dias de hoje? Ou seja, acha que de alguma forma o gênero estaria “desgastado” para o leitor?


O que está não apenas desgastado, mas quase abandonado, é o hábito da leitura. Numa sociedade de consumidores, a oferta de informação e entretenimento é enorme, e passa por outros meios que não o livro. A falta de relevância da literatura nos dias de hoje é correlata à falta de reflexão, de crítica e de projeto que caracteriza a sociedade contemporânea. Falta reflexão até mesmo quando se alega a falta de tempo para ler. O que realmente falta é perguntar: aquilo com que ocupamos nosso tempo é realmente valioso? Torna-nos melhores, mais sábios e mais felizes? 

A senhora discorre sobre diversos autores contemporâneos, entre eles dois escritores que são como água e vinho: Enrique Vila-Matas e Michel Houellebecq. O primeiro, apesar da inegável qualidade literária do texto, prega para convertidos, escritores e críticos, com sua ficção voltada para a própria literatura. Já o segundo, parece muito mais preocupado em inserir a literatura no debate político e comportamental de seu tempo, sem abdicar da ficção — muitas vezes em histórias distópicas, como a senhora assinala. Em um momento de crise, não estaria faltando à literatura buscar esse diálogo, que tenta Houellebecq, com a sociedade/leitores?

Com certeza, e por isso Houellebecq é muito mais lido do que Vila-Matas. As obras do primeiro têm sido elogiadas por economistas e sociólogos, como perfeitas descrições da sociedade atual. O problema, a meu ver, é que Houellebecq não é apenas distópico, mas é acrítico. Ele descreve nossa realidade com um olhar indiferente que beira o cinismo. É um observador de grande talento, mas não me parece que ele busque um diálogo com a sociedade, como faziam e fazem outros escritores melhores do que ele: Saramago, Coetzee, Amos Oz, McEwan, para citar apenas alguns.

Sobre a autoficção, a senhora esclarece que esse tipo de texto remete a períodos e autores bastante antigos. Não é novidade, portanto. Mas esse método de narrar não teria sido “turbinado” pelo nosso momento atual, com a valorização da exposição do indivíduo, das redes sociais, etc? Mesmo autores como Karl Ove Knausgård, bastante elogiado pela senhora, não teriam angariado leitores sedentos pela vida (real) alheia?

É verdade que o individualismo e o narcisismo contemporâneos, alimentados pelas redes sociais, favoreceram a explosão de autoficções. Mas querer saber o que as pessoas comem e com quem transam é muito diferente do que querer saber como elas vivem seus problemas, como se sentem nos momentos de solidão, o que pensam. Há autoficções irrelevantes como selfies, e há outras que são valiosas para os leitores que buscam, na vida alheia, inspirações para suas próprias vidas.

O desaparecimento da crítica de livros (ou sua diminuição drástica) nos jornais e a abordagem cultural praticada na internet (com suas listas e textos pouco reflexivos) dão a impressão de que, em se tratando de cultura e literatura, estamos regredindo, ou emburrecendo. Qual a sua percepção?

O desaparecimento da crítica está diretamente ligado com a perda de importância dos livros de ficção e de poesia na mídia. A literatura, hoje, tem um lugar muito restrito naquilo que atualmente se chama de “cultura” e que é sinônimo de entretenimento. Não sei se é emburrecimento, mas é certamente a perda de um poderoso estímulo aos neurônios, tornados preguiçosos pelo uso exclusivo dos meios eletrônicos.

“O individualismo e o narcisismo contemporâneos,
alimentados pelas redes sociais,
favoreceram a explosão de autoficções.”


Diante do panorama atual da crítica, qual é o melhor caminho para um escritor jovem ser percebido?

É muito difícil, para um escritor jovem, ingressar no circuito da edição e da publicidade. Pelo contrário, é muito fácil para um jovem qualquer se tornar “escritor”. Se conseguir muitos seguidores na Web, pode logo publicar um livro ou vários. No ano passado, vi uma fila de centenas de pessoas à espera da abertura de uma livraria de shopping, para comprar o livro de uma garota que posta vídeos no YouTube. Uma fila de dar inveja a qualquer escritor literário. O escritor jovem que pratica uma escrita de qualidade tem de ser paciente. Deve enviar seu livro para editoras que tenham catálogos compatíveis com seu trabalho e não desanimar com as respostas. Se sua obra for realmente boa, mais cedo ou mais tarde acabará sendo descoberta.

Recentemente na França se veiculou uma campanha publicitária que mos trava a baixa remuneração dos escritores de literatura. Os autores posam com determinados produtos (como um cafezinho ou um par de óculos) e uma legenda informa quantos livros é preciso vender para adquirir os objetos. A crise da literatura é mundial, e não apenas em países pouco cultos como o Brasil?

A crise da literatura é mundial. A França, que durante séculos teve a cultura como sua maior riqueza, sofre a mesma desvalorização da literatura no ensino básico e no consumo. Há um programa de entretenimento na TV5 Monde que se chama “Questions pour um champion” e dá vultosos prêmios em dinheiro para quem responder o maior número de perguntas de cultura geral. O nível das perguntas é alto, e se fosse no Brasil não encontraria concorrentes (por isso nem existe). Como assisto a esse programa há anos, verifico que o tema “literatura” encontra cada vez menos pessoas informadas. Perde de longe para os temas “geografia”, “esporte”, “cinema” e “gastronomia”. Se um país como a França abandona progressivamente sua memória cultural, o que dizer do nosso, que nunca teve de fato essa memória?

Em determinado momento de Mutações, a senhora faz uma defesa do meio acadêmico em relação à critica que se faz ao ensino da literatura (tanto na universidade quanto na escola). A senhora escreve que não é possível estudar literatura sem passar pelos textos clássicos. Um ponto que costuma gerar divergência, com muitos profissionais defendendo o uso de autores mais contemporâneos em sala de aula. O ideal não seria um ponto de equilíbrio entre esses dois pensamentos?

Para estudar literatura, é necessário partir dos clássicos. O mesmo acontece no campo científico. Isaac Newton dizia: “Se vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes”. Os professores de literatura podem e devem propor textos contemporâneos em suas aulas, pois sua temática é mais próxima da vivência dos alunos. Mas o bom professor, assim como o bom escritor contemporâneo, tem de conhecer os “gigantes” da história literária, porque estes não apenas criaram as bases da literatura moderna e contemporânea, mas são sempre atuais quanto às grandes questões humanas.

Uma de suas críticas diz respeito ao termo “pós-moderno”, que em relação à literatura agruparia características que sempre estiveram presentes na ficção, como a metaliguagem (Tristam Shandy), a paródia (Dom Quixote) e a intertextualidade (A divina comédia). A senhora demonstra como o autor contemporâneo se utiliza dessas heranças do passado e as diluiu no presente, utilizando para isso o termo “literatura tardia”. Poderia explicar esse conceito?

Não me lembro de ter usado esse termo. Usei, sim, o termo “modernidade tardia” para qualificar nossa época. O que caracteriza a literatura na modernidade tardia é que ela perdeu importância como instituição, como prática e como consumo. Atualmente, considera-se “literatura” qualquer escrito ficcional ou poético. E no enorme volume de publicações, muito pouco merece essa classificação. Justamente por ignorância dos “gigantes”, perdeu-se o pudor de publicar, e publica-se qualquer coisa. Portanto, poderíamos falar em “literatura tardia” para qualificar essa massa de escritos supostamente literários. Mas a boa literatura nunca é tardia, pelo contrário, ela é oportuna porque resiste ao contexto histórico e social adverso, apontando suas mazelas e mantendo a linguagem em bom estado, contra as simplificações, os clichês e os estereótipos.

Apesar do tom muitas vezes pessimista do livro (de fim de feira), a senhora escreve que “a literatura é um dos poucos exercícios de liberdade que nos restam”. Por quê?

Porque a literatura só pode ser praticada plenamente em sociedades democráticas. Mesmo em sociedades de períodos históricos totalitários e autoritários, os escritores sempre se sentiram livres para dizer o que tinham a dizer, sob pena de censura ou de prisão. Em nossa época, quando a maioria dos países se diz democrata, o escritor sofre a repressão não declarada de grandes poderes totalitários: o dinheiro, a mídia, a moda, o senso comum, a opinião corrente, as redes sociais, o moralismo etc. Mas em seu texto ele é livre para pensar, exprimir-se e imaginar.

Há também um capítulo sobre a volta do “romanção”, em que cita três autores americanos contemporâneos: Jonathan Franzen, David Foster Wallace e Garth Risk Hallberg. No Brasil, esse tipo de livro, que pretende apresentar um “painel” da sociedade, nunca pegou (apesar de algumas exceções). Saberia explicar o motivo?

O motivo é que não existe “a sociedade brasileira”. O Brasil é um território muito vasto e muito desigual em todos os seus aspectos, não cabe num “painel”. A nação norte-americana também é vasta e variada, mas ela tem uma liga social, registrada numa constituição imutável e numa imagem compartilhada do próprio país como livre, próspero e poderoso. Os romancistas norte-americanos que citei são, em graus diversos, críticos dessa auto -imagem, mas conseguem ver o conjunto e os principais problemas. Nos EUA há uma tradição do “grande romance americano”, de John dos Passos até os nossos dias. Diferentemente, ninguém em sã consciência ousaria escrever um romanção panorâmico do Brasil. O mais próximo disso que tivemos foi Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, que mesmo assim é regional. A visão de conjunto de nosso país não se encontra em nenhum romance brasileiro. Ela nos foi fornecida, via televisão, pela Câmara e pelo Senado nas votações de 2016.

Para terminar, quais foram as leituras mais interessantes, de autores brasileiros, que a senhora fez no último ano?

Dos livros brasileiros que li em 2016, os que me pareceram mais interessantes foram: O tribunal de quintafeira, de Michel Laub; Histórias naturais, de Marcílio França Castro; A vista particular, de Ricardo Lísias; A tradutora, de Cristovão Tezza.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ô, mais tá.... BAIANOSÁ, OUI, NÃO É SÓ ACARAJÉ


Paulo Vasconcelos


São Salvador-Ba tem estereótipos que não combinam; sim, ela tem cheiro de dendê, igrejas velhas, Farol da barra, baianas, fitas do Bomfim. Mas tem mais que isso: tem suor de trabalhador, com ou sem terno, no avionado das ruas. Faz-se festas, e também os congressos internacionais, encontros de managements do mundo, o turismo pesado e o capital se alvoroça nas ruas com a petroquímica agribusiness, produção de serviços e tecnologia. A Coca-Cola invade para se misturar com o abará e o beiju.

O Carnaval do turismo ajudou esse estereótipo, em conluio com a mídia televisiva e a cinematográfica. O Carnaval se dá em poucos bairros, o litoral urbano, e o olho bêbado não espia tudo. Pior: criou-se uma Indústria do Carnaval com o aval de artistas, indústrias, governo e mídia. Não há mais carnaval popular da Saborosa, de Dodô & Osmar, mortalha, hoje ele é uma réplica midiática modificada da festa carioca brodiuniana.

A Arquitetura Nova não conhecida (vide Caramelo, Isaias Neto) é estrelada pelas avenidas: A Antônio Carlos, claro, Paralela, T. Neves, edifícios imensos, comerciais e da burguesia, mais a classe média, varanda gourmet, um quarto; e espia-se por trás os bate laje, com favelas e favelas de vasta população, hoje, quarta maior cidade do Brasil. As esculturas ainda, mas há algo de Botero, será? Grandes CEOS vão às mães de Santos nos terreiros e são recebidos com cerimonial afro.

Os Magalhães, mais que Tomé de Souza, Garcia Dávila,Casa da Torre, insistem, mas parte do povo - a esquerda atenta. As universidades públicas têm excelência, as multinacionais engolem o aluno mais pobre que mistura-se aos ricos que não entraram nas públicas, mas estuda-se. O teatro, o cinema e a música esbanjam diferenças das caduquices do sudeste brasileiro, e tem público para muitas conchas acústicas. O axé canta coro com a mpb, com o rock, o blues, o jazz, o pop e as músicas dos terreiros.

Há um Lá ele, bacana! Ascende a Cosmópolis-mor do Brasil, com trânsito caótico, carros, roupas de cores, tecnologia de ponta, “Shopinguins” enormes, outros mini, e persistem a feira de São Joaquim, o Mercado Público do Rio Vermelho que não faz inveja ao sudeste.

O sal, as variedades brasílis, o ar marinho, cores naturais e espelhadas dos pórticos dos prédios performanceiam a megalópole, insiste a flor da noite-pipoca, as frutas e verduras em bancas, espalhadas pela cidade, bicicletas; os vendedores gritam antigos refrãos, do cuscuz; o wi-fi que se cruza pelos bares; o bom dia, boa tarde e noite são passaporte; e escuta-se Maria Bethânia, Caetano, Ivete, Mariene de Castro, Gil, Alexandre Leão, Ilê Ayê, Moreno, Brown, Saulo, C. Cunha, Jammil, Chiclete, Asa de Águia, Flavia Wenceslau, Silvano, La Fúria e vai e vai  e desce o sal pelas Avenida Sete , Chile, o bairro de  Águas Claras, Cajazeiras, Fazenda Grande 1 e 2. Imensa cidade, uma barra litorânea imensa, um metrô pequeno, um futebol de torcidas, carnaval como uma indústria e uma grande balança comercial. Grandiosa.

Bata tudo em ponto de Brasil e depare-se com um verde vasto, restaurantes das redes globais com drinques de aperol, rum, whisky, vinhos, cachaça, cerveja, chope. Mastiga-se carne de fumeiro, com farofa de banana da terra, caranguejo, afora churrasco, fatada, ufa! e os saguins, corujas, morcegos e outras faunas observam Tonha da cocada, os sorvetes de Gela goela e Gela bico. Na mesma batida, há os bairros: Brotas, Graça, Liberdade, Nazaré, Pelourinho, Cais dourado, São Joaquim, Campo Grande, Itaigara (com odor de classe média paulistana e de festas de cachorros na praça Ana Maria Magalhães, com bolo, balões e ossos para os cachorros da molesta imitando os americans paulistas).

A língua soteropolitana, aliás, acho estranho esta denominação, prefiro baianosá, tem imensas cores, e um toucinho peculiar com renda, gripi, vai do meu rei ao patrão, doutor, lá ele, apoi, meu, isso mesmo, meu e o tal do tomei, no lugar de levei (um susto, um gol), apaulistando-se.

O baianosá tem um campo lexical que o diversifica no nordeste, pela incorporação do falar dos estados vizinhos: mineirice e criolice dos hábitos de cariocas e paulistas, assim é uma gordura de qualidade linguística diferenciando-a. Apesar da força das midiotices, o povo come e arrota em suas peculiaridades, fazendo menos chué – a fala citadina em seu discurso.



Gregório, Castro Alves, Amado, Adonias, Ubaldo, Sosígenes seguem firmes, mas há novos e muitos que lambuzam com boa saliva a língua, e produzem uma literatura de fôlego que é a cara do Brasil, não é Lívia, Ari Sacramento, Flávio V. M. Costa? E ainda o Espinheira, Miriam Fraga (saudosa), Antonio Torres, Pereyr, Risério, Moniz Bandeira e haja! Que bom Baianosás!