domingo, 26 de março de 2017

AS CEGUINHAS QUE OLHAVAM O MUNDO CG. PB- MORRE UMA DELAS MARIA DAS NEVES

ARREDA-SE UMA MAS A  FORÇA CONTINUA.SÃO REPRESENTANTES MÁXIMAS DA CANTORIA BRASILEIRA. COM AFINAÇÃO E FORÇA QUE O GIL SOUBE BEM RESGATAR E LANÇAR EM DVD.
POR DIÁRIO DE PERNAMBUCO
Morreu, neste sábado, em Campina Grande, na Paraíba, a cantora Maria das Neves Barbosa, mais conhecida como Maroca, de 72 anos. Ela era uma das integrantes do grupo ‘Ceguinhas de Campina Grande’. A artista estava internada no Hospital Regional de Trauma da cidade desde o dia 21 deste mês, com sintomas de acidente vascular cerebral (AVC), segundo informações do Portal Correio (PB).

O trio, também conhecido como "Irmãs Cantoras de Campina Grande", era formado ainda por Indaiá, Francisca Conceição Barbosa, nascida em 1950 e Poroca, Regina Barbosa, nascida em 1944. Todas naturais de Campina Grande e cegas de nascença. As irmãs trabalharam na lavoura desde crianças e eram alugadas como mão de obra temporária pelo próprio pai, alcoólatra. Quando ele morreu, as três passaram a se apresentar nas ruas da cidade, cantando emboladas e tocando ganzá.

Com as doações que recebiam, sustentavam 14 parentes. O repertório do trio aos poucos passou a incluir cantigas, cocos e outras formas do cancioneiro nordestino, que as irmãs reprocessaram com acréscimo de improvisos.

Em 1998, elas foram personagem do documentário A pessoa é para o que nasce, de Roberto Berliner. O filme foi um sucesso e as paraibanas receberam elogios de artistas como Naná Vasconcelos e Otto. O baiano Gilberto Gil compôs uma música em homenagem às ‘ceguinhas’. Em 2004, Berliner lançou a versão em longa-metragem do seu documentário.. No mesmo ano as três irmãs receberam a Ordem do Mérito Cultural.

"As ceguinhas fizeram parte da minha infância e juventude, cantando pelas calçadas de Campina, antes de acontecerem filme, CD, shows", recordou em sua página no Facebook o escritor e pesquisador Braúlio Tavares. " Meio velhinhas, meio ameninadas, pessoas muito frágeis e incrivelmente resistentes. E que encontraram na música uma forma de tornar o mundo mais bonito para si mesmas, e, por tabela, para nós". 

sábado, 25 de março de 2017

QUEM TEM MEDO DE BAUDRILLARD?

POR LIVRARIA CULTURA JOCÊ RODRIGUES


Jean Baudrillard foi o enfant terrible da teoria pós-moderna na filosofia. Não gostava do termo. Achava-o vago e sem sentido. Comprava brigas epistemológicas com gente do porte de Gilles Deleuze e Jacques Derrida. Criticava abertamente o culto à imagem como substituta da realidade e os meios de comunicação em massa. Os argumentos de Baudrillard eram capazes de tornar qualquer defesa de alguns aspectos da contemporaneidade irrisória. Para ele, comprar uma bolsa ou um carro é também comprar símbolos que concedem prazer e status ao detentor. Além disso, tais símbolos seduzem e despertam ambição. Essa é, segundo sua ótica, a lógica da sociedade moderna. Enfim, fazia um verdadeiro escarcéu.

Junto a Zygmunt Bauman (1925-2017) e Paul Virilio (1932), Jean Baudrillard forma talvez o trio de críticos mais contundente da comunicação e da era digital. Tão perigoso quanto o trio de ataque do Barcelona, por exemplo.

O francês, nascido em Reims no longínquo ano de 1929, sempre foi duro na queda. Desde o lançamento de O sistema dos objetos, em 1968, já provocava polêmica. Tido por muitos como sua obra máxima, ela sistematiza o discurso da mercadoria e faz reflexões sobre o caráter simbólico dos objetos, partindo do pressuposto de que eles medeiam as relações humanas. “…Hoje os objetos tornaram-se mais complexos que o comportamento do homem a eles relativo”, diz um trecho do livro.

Entre suas contribuições filosóficas está a criação de conceitos como cultura imagética, espetáculo, valor-sinal, mercadoria-signo, lei do código, maioria silenciosa e simulacro. Todos se ligam pela tentativa de criar conceitos explicativos para o capitalismo e para a modernidade. Infiel ao marxismo, Baudrillard inverte papéis até então intocados e transfere o protagonismo da esfera da produção para a do consumo. Foi responsável por revelar de modo mais direto que estamos imersos na era da simulação e do simulacro, além de mostrar que nossas pretensões de autenticidade e realidade são rasas e vãs.

Neste mês de março, completam-se dez anos da morte de Baudrillard, mas é incrível pensar em quanta coisa mudou em tão pouco tempo. As relações virtuais se intensificam velozmente e sequer sabemos aonde elas podem nos levar. Apenas apostamos – às vezes, alto demais. Não há tempo para pensar, não há tempo para a informação se transformar em conhecimento e ficamos à deriva, em um lugar onde supostamente deveríamos navegar. Os temas discutidos por ele quase sempre tinham acontecimentos contemporâneos como ponto de partida. A cultura pop, o terrorismo (bem mais acentuadamente depois do ataque às Torres Gêmeas): todos se tornaram gatilhos para algumas de suas reflexões mais pertinentes.



Para Jorge Barcellos, historiador, pesquisador e doutor em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “mais do que inovar com conceitos, Baudrillard codificou uma metodologia de construção de um sistema de pensamento”. Em seu entendimento, o pensador francês deu uma nova perspectiva aos estudos sociológicos. “Antes dele, a prática sociológica era formalista, isto é, muito restrita aos limites da disciplina e aos conceitos herdados da sociologia clássica a partir de Weber, Marx, Durkheim, Parsons e cia. Havia pouco espaço para a interdisciplinaridade, para o ensaísmo crítico e, principalmente, para a ironia na escrita”, explica. “Baudrillard colocou de cabeça para baixo tudo isso. Sua inspiração na linguística e na antropologia lhe possibilitou escrever um texto como um hieróglifo, que necessita tradução.”

BEM DE PERTO
Mesmo tão virulento na escrita e nas posições acadêmicas, a fama de bicho-papão parecia passar longe da vida cotidiana de Baudrillard. Juremir Machado, jornalista e doutor em sociologia pela Universidade de Paris V, foi seu orientando em 1998 e diz que o pensador era um homem “afável, irônico, inteligente demais, que sabia deixar a gente à vontade, um gentleman”. O tema de sua tese era comunicação e pós-modernidade e contava com o suporte de dois outros grandes pensadores franceses: Edgar Morin e Michel Maffesoli.

“Conheci Jean em 1991, por intermédio de Maffesoli. Fiz uma entrevista com ele sobre a iminência da Guerra do Golfo. Ficamos amigos. Eu o fiz vir a Porto Alegre algumas vezes, uma delas junto com Maffesoli e Morin, em 1993. Quando defendi minha tese de doutorado, na Sorbonne, em 1995, tendo Maffesoli como orientador e Morin na banca, Jean foi assistir. Foi um momento inesquecível para mim”, disse Machado, que conviveu de perto com aquele que, depois de certo tempo, passou a chamar carinhosamente de Jean.

A relação com seu orientador se baseava na informalidade, em assuntos sobre livros, jornais, ideias e política. “Jean sempre me pareceu uma pessoa especial. Ouvia o que as pessoas diziam, fazia comentários pontuais irônicos ou com muito humor, convidava para beber uma taça de vinho, contava alguma história das suas viagens, gostava de embarcar em projetos”, relembra.

É conhecida a ligação que Baudrillard tinha com o Brasil e parece haver um dedo de Juremir Machado nisso. Um dos projetos em que ele embarcou foi o de publicar alguns dos seus textos em terras tupiniquins. “Eu propus a ele que publicássemos no Brasil seus artigos do jornal Libération. Aceitou. Saiu no Brasil, em primeira mão, pela Sulina, Tela total, que depois teve edição na França. Fizemos também um livro pela Sulina unindo a poesia e as fotos dele, O anjo de estuque. Ele se entusiasmava e colaborava com os projetos. Era muito bacana.”

Ainda sobre a personalidade do fotógrafo, poeta, filósofo, sociólogo e semiólogo, Machado diz não se lembrar de tê-lo visto de mau humor. “Sempre o vi provocativo, amável e objetivo. Dizia o que pensava, não fazia concessões, não menosprezava o interlocutor.”

CORPO QUASE PRESENTE
Na tentativa de perseguir os caminhos e de dar contornos à turbulenta personalidade acadêmica e pessoal de Baudrillard, Paulo Alexandre Vasconcelos foi essencial a este repórter. Professor, doutor em ciências da comunicação e poeta, indicou os caminhos menos pantanosos e os nomes certos a serem ouvidos. Autor de Baudrillard – Do texto ao pretexto, Vasconcelos foi meu Virgílio em meio à densa floresta do pensamento baudrillardiano.

É visível a paixão que ele tem pela obra e pelo legado daquele que afirma ser um dos maiores pensadores que já tivemos. “A presença de Jean Baudrillard, mesmo em sua ausência corporis, permanece nos tempos contemporâneos, tendo em vista sua obra vasta – polêmica para muitos –, desde suas pontuações teóricas até sua poética ensaística em suas Cool Memories IIIIIIIV e V [série de livros considerada uma autobiografia do autor]. Jamais devemos esquecer sua leitura do mundo nesse formato, em que ele solta de modo mais claro a incongruência do sujeito dentro do caos. Ele faz antevisões que hoje recortam a história e nosso cotidiano mundial, nada se desdiz, continua atual e faz-se cumprir a miséria estúpida do nosso mundo, em um êxtase de descompasso”, garante.

A morte, aliás, era outro assunto tratado sensível e profundamente por Baudrillard, que, de sua maneira encrenqueira, flertava com a psicanálise. “Em A troca simbólica e a morte, ele se apropria de alguns paradigmas da psicanálise – o narcisismo, os princípios do prazer e da realidade, e os conceitos de pulsão de vida e de morte –, reinterpretando-os com base em uma economia política e sua signagem, realocando-os para uma nova contextualização, segundo ele, da contemporaneidade caótica do mundo do capital e seus envolvimentos densos na política. Enseja críticas a Marx e à psicanálise como um todo, acusando esta última ‘de ter, até certo ponto, contribuído para o fim do desejo e do inconsciente, por meio de uma metalinguagem do desejo’”, explica Vasconcelos.

“A questão do desaparecimento é tão central em Baudrillard como é em Paul Virilio. Só superamos um fato natural porque criamos o simbólico, isto é, representamos nossa relação com a morte e damos significado ao morto. Esse simbolismo transparece na religião. A higienização, a ciência, o medo nos afastam do reconhecimento da morte como etapa natural da vida. Não pensamos nela. Excluímos ela de nosso horizonte”, esclarece Barcellos.

O filósofo problemático não chegou a ver a ascensão das redes sociais e seria no mínimo curioso saber o que diria sobre elas e sobre a febre dos seriados que agora assola nossas pobres almas. Para Juremir Machado, “o real morreu” e a simulação “atingiu o grau máximo de sua realização”. Ele também acha provável que Baudrillard visse o boom das séries como uma universalização das novelas brasileiras. Jorge Barcellos acredita que, se ainda estivesse vivo, o francês ficaria muito interessado “em nossos novos artefatos tecnológicos, sejam eles os drones ou os novos efeitos do cinema” e nas revoltas pelo mundo, dada a crítica política aguçada que possuía.

Seja como for, o espírito inquieto do pensador invocado continua a encantar e a influenciar leigos e estudiosos interessados em compreender o real por vias ainda pouco exploradas. Enquanto o mundo continua a se transformar caoticamente, Jean Baudrillard permanece símbolo de ousadia e liberdade intelectu

sexta-feira, 17 de março de 2017

‘Drogadictos’, uma viagem (literária) e tanto

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/15/cultura/1489592134_191162.html
1:59 BRT  por El país Brasil  






Vamos Aguardar no Brasil, se é que haverá interesse me Publicar;Há Latinos a escrever sobre o tema...


Chega às livrarias espanholas Drogadictos (Dependentes de drogas), um livro escrito por, quase todos, viciados. Certo, alguns deles não o são, ou pouco. Outros, se pode notar, bastante. Doze autores espanhóis e latino-americanos escrevem sobre viagens, não exatamente para hotéis com tudo incluído. Cada um se debruça sobre uma substância proibida, pelo que se vê nada proibida. O grupo é formado, pela Espanha, por Lara Moreno (ópio), Sara Mesa (morfina), Juan Gracia Armendáriz (maconha), Juan Bonilla (ecstasy), Marta Sanz (lorazepam), Javier Irazoki (tabaco), Manuel Astur (LSD) e José Ovejero (sexo); pelo Peru, Richard Parra (crack); pela Colômbia, Andrés Felipe Solano (álcool); e pelo México, Mario Bellatin (talidomida) e Carlos Velázquez (cocaína).
Não vamos exagerar: escrever sobre, a partir de ou por trás das drogas não é novidade. Guia de leitura urgente: Thomas de Quincey, que ficou viciado em ópio enquanto seus pais pagavam seus estudos em Oxford e depois pariu, extenuado, Confissões de um Comedor de Ópio. Henri Michaux e suas viagens com mescalina, igualmente presentes em alguns de seus poemas e em muitos dos seus embriagantes nanquins. Leiam, leiam seu muito lisérgico O Infinito Turbulento. Antonin Artaud e o ritual do peiote com os índios tarahumaras (Os Tarahumaras, leitura recomendável a todos, praticantes da causa ou não). Baudelaire precedendo e inspirando Walter Benjamin na expressão literária do haxixe (deste último, visite ou revisite Sobre o Haxixe e Outras Drogas, do primeiro volte sempre a Paraísos Artificiais, bíblia literária sobre a questão, diante da Bíblia teórica, Historia General de las Drogas –História geral das drogas–, de Antonio Escohotado).



Dito isto, todos estes escritores e todos estes livros pululam como pano de fundo consciente ou inconsciente em Drogadictos. O volume traz doses suficientes de reflexão, divertimento, canalhice, vire-se sozinho, ausência de preconceito e o habitual coquetel de prazer e remorso (já sabem, “por que são tão boas essas porras de drogas...”), tudo misturado com certa vocação de retrato sério dos paraísos artificiais e seus efeitos. Tudo temperado com soberbos devaneios gráficos do ilustrador francês Jean-François Martin, colaborador regular de jornais como Le MondeThe Guardian e The New York Times. Aqui os desenhos não apoiam o texto, aqui os desenhos são outro livro.
Tudo em Drogadictos tem um ar inocente e legítimo de convite ao prazer –com o perdão da expressão–, ao prazer da leitura, entenda-se. No entanto, as sucessivas viagens têm momentos difíceis e, mais além disso, dramáticos e trágicos. Também tragicômicos. Mas não cômicos.
Uma garota de cabelo cor de laranja come a dose de ópio que seus pais lhe deram porque se queimou com o forno e porque esse parece ser o alimento de base da família, e o ópio, é bem conhecido, cicatriza queimaduras e todo o resto. Um camicase enlouquecido pelas ruas de Lima não consegue encontrar o momento de parar de comprar e consumir coca peruana, a melhor do mundo (“o bilhete dourado do Willie Wonka do mundo da droga”). Ou o primeiro mergulho no ecstasy: o zumbido urbano de Barcelona, música techno nas alturas, a lama das próprias obsessões e aquele poema de Luis Rosales que falava da “floresta incendiada sob a água”.
A morfina entrando –e o pior de tudo: não entrando– na veia do moribundo no horror do mundo paliativo. A iniciação na maconha mais selvagem do mundo, fumando e vomitando lá em cima, na Sierra de Lobos, do México, paraíso e inferno. Frases memoráveis como esta de Andrés Felipe Solano: “Pediram um café envenenado com rum branco em uma loja na qual ainda vendem lâminas de barbear como aquelas usadas pelos suicidas dos filmes”. O tabaco trazido da América que o avô de Javier Irazoki plantava numa aldeia de Navarra (avô real ou fictício): “A heroína pura, o LSD, a mescalina ou o ecstasy concentrado não poderiam competir com semelhante alucinógeno. Cada fio de tabaco era uma bomba de surrealismo”. Ou a memória do sexo traçada por um escritor que teve de suar tinta para convencer seus editores a deixá-lo fazer isso... tinha todo o direito moral do mundo: era um verdadeiro viciado em sexo, e o sexo é uma droga, então era um drogado.
Temos de continuar a ler todos os autores clássicos que um dia escreveram sobre o assunto: suas lições são bastante práticas, para não falar de sua literatura, quase sempre absorvente. Também é preciso ler este Drogadictos se o que se deseja é, por um lado, prolongar a viagem pelas drogas através de papel e tinta, e por outro, ter acesso a uma situação muito curiosa e rara: a disposição de um punhado escritores para contar histórias que falam de um marasmo, aquele da relação entre o homem e as substâncias proibidas. A coisa remonta a algo como 4.000 anos atrás, de acordo com os que sabem. Não é, em suma, um assunto novo. Mas pode se tratar de uma forma nova. Esta o é.

terça-feira, 14 de março de 2017

o menino que carregava água na peneira...

o menino que carregava água na peneira...


Elton Luiz  Leite de Souza


(trecho do livro)

Quanto às funções da poesia...Creio que a principal é a de promover o arejamento das palavras, inventando para elas novos relacionamentos, para que os idiomas não morram a morte por fórmulas, por lugares comuns. Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para esse trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichês. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso, a poesia tem a função de pregar a prática da inocência entre os homens.
Manoel de Barros, “Sobreviver pela palavra”).
Essa “terapia” da linguagem e dos homens constitui a essência dessa poética que se abre a uma experiência singular, onde o chão “pode divinar” e nos restituir a eucaristia com os seres que, “vestindo o poeta” , fazem da poesia um “afloramento de falas” : falas da vida, falas da infância, falas dos excluídos, falas do inconsciente, falas do corpo, falas daqueles que não têm falas...enfim, falas de nós mesmos que muito nos custa calar.
Assim, essa “didática da invenção” e do estilo, construindo uma “Imagem” singular para a vida,  “empoemando” as palavras para assim nos ensinar a “empoemar” a nós mesmos, nos diz que é preciso
A prática do desnecessário e da cambalhota , desenvolvendo em cada um de nós o sentido do lúdico. Se a poesia desaparecesse do mundo, os homens se transformariam em monstros,máquinas, robôs.
 Se a poesia desaparecesse do mundo, adoeceríamos de uma fala puramente egóica ou massificada, uma fala-clichê sem “florescimentos”: uma fala refém das significações e representações que, no presente, prostituem e estupram as palavras.
Se a poesia desaparecesse do mundo, restaria apenas uma fala que tão somente reproduziria, como “boa-cópia”, aquilo que o poder, estabelecendo seus limites (semânticos, políticos, midiáticos, mercadológicos, existenciais...), permite falar e ser.
A essência da poética de Manoel de Barros, sua empoética terapêutica,consiste em produzir uma didática da invenção. Esta nos ensina que não apenas o poema, mas a própria Vida somente se explica como um “milagre estético”:

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto no final da frase. 
Manoel de Barros “O menino que carregava água na peneira”)

51 ANOS DE CHICO DE CHICO SCIENCE

* Um grande músico que renovou a música brasileira, o rock, inserindo ritmo mediante novos instrumentos de percussão.Fez sucesso mundial, alargou os patamares de visibilidade de nossa canção, de certo modo fez críticas sociais. Inovou o video clipe e trouxe a Pernambuco uma visibilidade ainda maior na sua música jovem, o estado de Pernambuco mantém sua memória viva pelos posters pela cidade e na sua programação, mesmo fora de eventos comemorativos.O movimento manguebeat  dos anos 80 deu-nos -Chico Science & Nação Zumbi ele  era o CARA!!!!!!!!
Paulo Vasconcelos



                                         Foto : Arquivo Rtv por D.Pe.PE


Diário de Pernambuco 14.03.2017

Nesta segunda e terça-feira (14), das 9h às 17h, serão exibidos shows, documentários, entrevistas e fotos da trajetória de Chico, que morreu tragicamente em um acidente de carro em 1997 na rodovia PE-1, região do Complexo de Salgadinho, divisa entre Olinda e o Recife. Na quarta-feira (15), às 15h, o DJ Tiger apresenta seleção musical baseada nas influências do artista, como James Brown, Afrika Bambaataa e Beastie Boys.

Na quinta-feira (16), às 14h, Jamelão, o irmão mais velho de Science, resgata histórias, lembranças, detalhes e curiosidades sobre o parente. Na sexta-feira (17), às 15h, Gilmar Bolla 8 conversa com o público e detalha a trajetória do líder do manguebeat desde a década de 1980, quando se formou o embrião da banda Chico Science & Nação Zumbi. Inscrições podem ser feitas pelo e-mail mchicoscience@gmail.com. 

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terça-feira, 7 de março de 2017

Carnaval: Papangus ausente? E os Apangus Paulistanos?

FOTO .D PE.

Papangu denominação dada a foliões que se vestem colorido, fantasiados, nas manifestações carnavalescas do Nordeste, , nas regiões de Alagoas, Paraíba, sobretudo em Pernambuco (a cidade de Bezerros, com seu carnaval nesta temática). Diz-se que sua origem está em grupos e pessoas que se vestiam com máscaras de panos simples improvisadas e saiam de casa em casa, comendo e bebendo durante o carnaval; há um outra manifestação que se aproxima, destacadamente na Paraíba, que  é a Lauça, uma ressignificação de se vestir ”a la um urso” .

Mas o papangu, pernambucano, se alterou: de máscaras simples para industrializadas ou ainda artesanalmente, mas de modo rebuscado, à moda Italiana, veneziana. Já  a  Lauça não, permanece no improviso. Entretanto, já há muito tempo, no dia a dia, a palavra ganha outro significado no sentido de ser um sujeito tolo, apalermado, bobo, moleirão.

São Paulo foi uma cidade que teve tradição de carnaval de rua entre o século XIX e começo do século XX. Era um carnaval veneziano, de máscaras, os Clóvis (mascarados solitários) e corsos, da burguesia na Av. Paulista, ainda sem este nome. Depois a Vila Esperança, com seus bonecos enormes como os de Olinda, e o Bexiga e Barra Funda. Foram famosos diversos cordões carnavalescos, uma espécie de procissão, em fila de corda pelas ruas.

O carnaval de avenida – escolas de samba – foi inspirado por estes cordões. Copiaram os modelos cariocas, incentivados por um corporativismo das escolas, investimentos da mídia, e empresas, de bebidas alcoólicas, cervejas... Daí o Sambódromo paulista, construído com apoio de rede de televisão, instigado e pago por tal rede, teve seu calendário alterado, para não bater com os desfiles do Rio de janeiro, do primeiro grupo de lá.
Enfim, o carnaval da capital não tem originalidade, coisa que cordões tiveram. Hoje são reféns do capital. Decaiu o samba, o desfile, como afirmou Beth Carvalho, recentemente.

Nas periferias o carnaval existe disperso, resistiu às tradições, até dos maracatus, índios e afoxés, isto como resistência dos negros e nordestinos. Entretanto, não ganha expressividade midiática.

Voltemos ao Papangu. Ele não existe de modo nordestino. Salvo nas periferias, o Papangu Paulista são grupos soltos ou redutos de blocos nascidos aos poucos, desde o século passado. Em 2012,  ganharam intensidade, no governo do PT, que incentivou este carnaval de rua. 

A concentração se dá, sobretudo, na semana pré-carnavalesca; na Zona Oeste, Centro, Av. Paulista, Consolação, Anhangabaú, Bexiga, Vila Madalena, sendo que, neste último, resultado da classe média, burguesa, que recriou um carnaval apapanguzado. São sujeitos sós ou em blocos, pequenos e grandes, e que vem copiando a modalidade do nordeste e alguns do Rio de janeiro, mas sem expressividade estética maior e se vestem com máscaras, ornamentos outros. Grande parte das vezes o álcool os fantasia nos seus gestos, e solta o bicho de dentro de si  num entortar das roupas que o fazem uns papangus anômalos Ornam-se, como falam eles.

Eles então ganham o segundo sentido, que mencionei no início, são manifestações tolas, abobalhadas que não sabem nem porque estão nas ruas e ficam uns-vão-com-outros.

Alguns blocos vem se afastando deste apapanguzamento e estendem-se pelo período momesco, tomam motes políticos, dentro da crise no pais.

Mas não só de desajeitados vem à tona o carnaval paulistano:  Gretchen, DJs e o povo que o digam; pelas ruas do centro, e mais Vila Mariana, Santo Amaro, Bexiga, Faria Lima, Vila Maria, Pinheiros, Lapa, Pompéia, Consolação, praça Roosevelt, Av. Paulista, fora o off Broadway do sambódromo .

Os nomes  lembram o espontâneo e popular como: Bloco Vem Ku Nóis Ó, Bloco de Concreto, Bloco do Desmanche, Banda Carnavalesca Macaco Cansado, Bloco Bastardo, Esfarrapados (famoso e antigo), Bloco Ma-Que-Bloco, para falar apenas de alguns, pois são mais de 500.

Conheci um Europeu, que estuda assistematicamente o país, e gosta da nossa cultura. Fala bem o português. Veio a São Paulo, andou pelas ruas do centro e Avenida Paulista e disse-me: “Que TV é essa? 24 horas de Carnaval?  Que é isso?”, e mais, “que carnaval é este, daqui de São Paulo?, não  entendi, encontrei mais bêbados enturmados e solitários”. Retruquei, falando de nossos carnavais e, ao fazê-lo, apontei vários carnavais do brasil passando pelos papangus – falei dos dois sentidos, o que ele revidou dizendo “então aqui é o carnaval do Apangu!”. Ri e vi que sim. Ele disse: então é o Trema  !
O fato é temos circo, carnaval e gritos de “Fora Temer”...
Este foi o maior papangu...!