O homem que descreveu o doce amaciamento da palavra brasileira na senzala
A VII Fliporto, que aconteceu em Olinda (PE) em novembro, teve como grande homenageado Gilberto Freyre, sendo refletido por meio de Edson Nery da Fonseca, pernambucano e o maior conhecedor de sua obra. Destaque também para Fátima Quintas, antropóloga, contista e cronista, e M.L. Pallares-Burke, historiadora.
Gilberto Freyre inovou a palavra, a narrativa científica da Sociologia, Antropologia e História do Brasil em suas peculiaridades dos intimismos. Apreciador de literatura nacional e internacional, jornalista, poeta e novelista e amigo de tantos, entre eles José Lins do Rego e Manuel Bandeira.
Em São Paulo, Lobato, que foi um de seus apreciadores, publicando seus artigos iniciais na Revista do Brasil (1923), também foi seu amigo, assim como Sergio Buarque de Holanda.
Eu, como paraibucanosampista (paraibano, pernambucano e paulistano), fico na obrigação, com estilingue ou baleadeira da memória, de afiar alguns focos de Freyre.
Em 2000, a revista The Economist colocou Casa Grande & Senzala como uma das obras do século – apenas ela figurou representando a língua portuguesa. Gilberto Freyre, em sua inovação na história das intimidades, causou embates, mas o mundo o consagrou. Aqui, queremos ressaltar de modo breve, na sua vastidão de aportes à nossa cultura, a contribuição dele na sociolinguística no terceiro e quarto capítulos desse livro de 1933, em que Freyre fala:
“() Alguns indivíduos fazem profissão de contar história e anda de lugar em lugar recitando contos. Há o akpalô, fazedor de alô ou conto; e há o arokin, que é o narrador das crônicas do passado. O Akpalô é uma instituição africana que floresceu no Brasil na pessoa de negras velhas (…) Por intermédio dessas negras velhas e das amas de meninos, histórias africanas, principalmente de bichos-bichos confraternizando-se com as pessoas, falando como gente ()”
Gilberto Freyre destaca, com seu faro antropológico e sua faca literária luminosa, o contato das negras com a palavra portuguesa, dando-lhe outro tempero sonoro, rearrajando-lhe o que deu um toque no nosso hibridismo linguístico. Mesmo com tratamento sangrento que o torturou e dizimou muitas nações negras, o negro penetrou na língua como o dói, amolecendo-se em dodói.
As negras adentraram as casas grandes retemperaram a comida, o sexo, o ninar, o peito (seu leite) e Freyre amolega a narração ao demonstrar essa modelagem linguística:
“(…) A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles (…)” (trechos de Casa Grande & Senzala)
Acrescentaria ainda que a negra ouviu a criança e deu carícia ao fonema, propagando-o como ododói. As amas deram a doçura da infância, mesmo com o tratamento de terror que recebiam dos senhores da Casa Grande.
Surgiram, segundo Gilberto Freyre, as DondosTotonhasToninhas (Antônias), as Tetés(Terezas), os NezinhosMandusManés (Manuéis), Chicos ou Chicós (Franciscos), e as Iaiás, dos IoiôsSinhásManusCallusDedés e Nocas, sem falar em caçambacangadengo,mulambocafuné e camudongo, entre outras.

*É paraibano, mestre e doutor pela ECA-USP. Professor de Teoria Literária na Anhembi-Morumbi, professor colaborador da ECA-USP, Fundação Escola de Sociologia e Política-FESP, além de contista e poeta com livros publicados (paulo@brasileiros.com.br).