Poeta cantante Cantor, compositor e cineasta, o chapeleiro maluco da madrugada Alceu Valença lança ótimo livro de poesias na praça
O cantor e compositor Alceu Valença estreia no carnaval paulistano - Foto: Luiza Sigulem
O cantor e compositor Alceu Valença estreia no carnaval paulistano – Foto: Luiza Sigulem
“Eu lembro da moça bonita
Da praia de Boa Viagem
E a moça no meio da tarde
De um domingo azul
Azul era Belle de Jour…
(Belle de Jour)

Como poeta, suas letras, nas canções, se estatelam dentro e fora do Brasil, e fazem o povo cantar e poemar. Alceu, um pernambucano, de São Bento do Una, nascido em 1946, veio para Recife e bacharelou-se em Direito pela UFPE. Trouxe consigo uma bagagem forte de sua história entre cegos de feira, emboladores, poetas de cordel, enfim, amalgamou sua verve poética. Utilizou também elementos da nova cidade, claro – daí sua obra extensa, lírica, nas letras das músicas e agora no seu primeiro livro de poesias, que se alumia com o mesmo ritmo de suas canções: O Poeta da Madrugada, lançado pela Chiado Editora, de São Paulo.
Aos quarenta anos de vida artística, o cantor, compositor e poeta Alceu também desfila no cordão dos cineastas, haja visto seu longa-metragem A Luneta do Tempo, de 2009, que traz os mesmos adubamentos temáticos de suas canções.
Interessante dizer que seus versos mais se alumiam diante dos arranjos, por ele feitos ou por terceiros, dando-lhes cor nordestina de ritmo e força popular.

O prefácio de seu livro foi feito com a batuta de outro poeta da língua portuguesa – José Eduardo Agualusa, angolano –, que diz: “O livro percorre ainda uma preciosa geografia de afetos, abraçando Olinda, Recife, o Rio de Janeiro e Lisboa. Passeando pela capital portuguesa, o poeta recorda a terra natal misturando, como diz Lavradio e Livramento. É neste território da Língua Portuguesa – o quinto Império vaticinado por Pessoa e reiterado por Agostinho da Silva – que Alceu se reconhece e se comove – e nos comove…”.
E vamos pra cima da poesia de Alceu:
Estou montado no futuro indicativo
já não corro mais perigo.
Nada tenho a declarar.
Terno de vidro, costurado a parafuso, 
Papagaio do futuro
Num para-raio lunar… 
(Papagaio do Futuro)

E sempre com seus cheiros, diz ele:
Quando te lembras
Do cheiro da minha carne
Cheiro de bares
cheiro de mares
Do Bar do Trevo
E tuas ventas
Sentem cheiro da saudade… 
(Cheiro de Saudade)

*É paraibano, mestre e doutor pela ECA-USP. Professor colaborador da ECA-USP, além de contista e poeta com livros publicados (paulovasconcelos@brasileiros.com.br).
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