sexta-feira, 28 de abril de 2017

O BRASIL PAROU!!!!!!!!


A MAIOR GREVE DE TODOS OS TEMPOS 28.02.2017
                                                          São Paulo -Fiesp,Av Paulista
                                                       Recife, Mercia Belo via Facebook


O País parou de ponta a ponta.As grandes e pequenas cidades manifestaram seu repúdio a um

presidente golpista.Este  presidente ,apoiado pela direita tem colapsado o país com golpes ao

trabalhador, vide :Previdência e as Leis di trabalho,CLT.O desemprego ascende a patamares

calamitosos, quase 15 milhões de trabalhadores.



A mídia, tv, rádio e meios impressos, são cúmplices do governo golpista, salvam-se alguns jornais

digitais.



A população reagiu, foi às ruas e gritou seu grito de pavor.A paralisação, greve, teve apoio das mais

diversas categorias de trabalhadores do país e até da igreja católica, dos evangélicos e as afro-

brasileiras.

São Paulo, maior centro econômico do país, onde a direita de circunscreve via empresariado

e a velha burguesia, amanheceu na sexta-feira uma cidade de fantasma.



A polícia, nas capitais de São Paulo  e Rio , sobretudo, violentou parte da população que se formava

nos grandes ajuntamentos, mas a população cravou seus dentes de força.

Um dos jornais digitais de credibilidade,Brasil de Fato, http://bit.ly/2qfBMqO, assim se expressa:



"A greve geral desta sexta-feira (28), convocada por diversos movimentos e entidades populares, já é considerada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) como a maior mobilização da história do Brasil. Estima-se que cerca de 35 milhões de brasileiros deixaram de trabalhar. 
Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, essa é a maior greve trabalhista já realizada no país. Ele a comparou ao movimento de 1989, quando 35 milhões de trabalhadores paralisaram os trabalhos. “Ainda não há estimativa, mas a Central vai ultrapassar esse número”, disse Freitas para o Congresso em Foco.
Desde as primeiras horas da manhã desta sexta (28) já era possível sentir o clima em diversas cidades pelo país com as ruas vazias, metrôs e trens parados, além de fábricas fechadas, ônibus na garagem e rodovias trancadas.
A greve geral teve grande adesão nas mais variadas categorias de trabalhadores, afetando significativamente a mobilidade em São Paulo (SP), no Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Curitiba (PR) e em, praticamente, todas as grandes cidades do país.
Para Nivaldo Santana, vice-presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a greve de hoje é histórica e pode representar uma mudança de rumo na luta do país. "O Brasil inteiro parou em diversas categorias com uma forte unidade das centrais sindicais com outros segmentos da sociedade. Essa greve pode marcar uma inflexão em que os trabalhadores saem da defensiva e podem adquirir maior protagonismo. É um dia que entrará para a história do povo brasileiro", avalia.
Não existem números disponíveis sobre o total de trabalhadores em greve, mas lideranças sindicais festejam o sucesso do movimento e não teem dúvidas de que milhões de pessoas deixaram de trabalhar nesta sexta-feira no Brasil. 
Dezenas de categorias aderiram ao dia nacional de paralisação, reorganizando transporte, escolas, bancos e indústria em todo o país. Estabelecimentos de saúde – hospitais, unidades básicas, prontos-socorros –, onde não se pode paralisar 100%, os trabalhadores vão fazer escala semelhante à de final de semana, priorizando o atendimento à emergências.
As mobilizações são para denunciar os cortes de direitos promovidos pelas propostas de reformular as leis trabalhista e previdenciária do governo golpista de Michel Temer (PMDB).
Em entrevista ao Brasil de Fato nesta tarde em São Paulo, Freitas disse que as políticas do Temer não "estão criando emprego, ele está criando 'bico', sem proteção e sem direito nenhum. Essa greve foi a greve pela CLT, as pessoas querem carteira assinada", destacou.
Para o sindicalista, "Temer já perdeu, a sociedade é contra as reformas, porque já entendeu que o Temer está vendendo a Previdência para os bancos. Ele quer acabar com a Previdência pública para o banco poder vender a Previdência privada".
Lula
Em entrevista à Rádio Brasil Atual nesta manhã, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerou a greve contra o governo Temer um "sucesso total". Ele ressaltou que as ruas de São Paulo e de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, onde ele reside, estão vazias, ou seja, um sinal de que "as pessoas resolveram paralisar em protesto contra a retirada de direitos, contra a reforma trabalhista, a reforma da Previdência, desemprego e redução salarial."
Para ele, esse resultado representa uma conscientização do povo brasileiro em relação aos impactos das propostas do governo federal. "A greve teve adesão da dona de casa, dos trabalhadores do pequeno comércio. O movimento sindical e o povo brasileiro estão fazendo história", ressaltou. 
"Nem de domingo as cidades têm trânsito tão leve quanto eu vi hoje. O povo ficou em casa. As pessoas não precisam ir pra rua em dia de greve. Isso é uma clara demonstração que as pessoas resolveram paralisar em protesto contra a retirada de direitos que o governo vem fazendo. É uma satisfação saber que o povo brasileiro está tomando consciência", afirmou. "
Resta agora, de modo próximo, o dia primeiro de maio com as centrais sindicais se manifestando nos grandes centros, cidades, do país.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

UM POETA AINDA VIVO EM TESSITURA POÉTICA

 A poesia de Alexandre Coutinho


“Menino é raso / de meninura.” 

O poeta está mais vivo que a ponta da lança que o levou  ou ajudou a sair para outro canto ou desencantou-se ou reencantou-se. Seu corpo, âncora de vida, foi de difícil apelo, como todos os outros são ,mas no corpo da letra “ele tentou domar o corpo textual, gulosamente e em velocidade, como sua música “, afirma Lorena Grisi, parceira e amiga.

A poesia de Alexandre Coutinho (Iraquara, Bahia, 1982-2013) tem a estirpe de suas cordas, música, como ator, de seu visgo com a vida, como sobrancelha sem uso sobre nenhum olho, mas vital no absurdo que vaga a vida, na inconciliação  com o real duro .
Seu livro Estudos do Corpo (2012, Editora 7 Letras  ) traz dourações de apalavramento da loucura do lúcido de si, desse si com a vida .

E enxergo gota/Palavra de mim
Que é água que brota/Para tudo além da sede...
Palavra  de mim/O canto do ocaso
A alma narcótica/Palavra de mim
Cede à doença/Me entendo/Ao passo do fim
Nos olhos do outro/A palavra de mim.

Ligia Guimarães Telles, professora doutora e orientadora de Coutinho na dissertação de mestrado na UFBA (Letras, 2011) – O extremo do possível em rútilo nada: uma síntese concêntrica em  Hilda Hilst – se refere a sua poesia assim: “(...) Lírico e trágico se enlaçam, compondo em performance a cena da criação poética, seus gestos e acenos... como em Jazz nº 10”:

Aqui não há silêncio, onde me encontro tudo é ruído. Ossos rangendo na boca. Dentes batendo no peito. Estômago compondo toxinas...

Continua Ligia: “A qualidade musical assumida no título da segunda parte do livro - “JaZ.z” – e dos 20 poemas. Dessas imagens assoma o corpo masculino em nudez, permitindo ao leitor relacionar corpo humano/corpo do texto, da palavra, da escrita. As aliterações constantes aguçam a audição”:

Minha lascívia/de lodo e lama;
Torpor de um vício adunco/Vapor de vínculo e vinco;
Fruição frêmita de estrofes e tempos.

Mas este poeta, como todo ser homem, foi, na sua poesia um subtítulo escrito pela sua textualidade:

Entre miasmas, ruídos, máscaras, entre o parque central e o cemitério S. Pedro, onde havia uma cova com meu nome (...). Com tanto peso simbólico, foi impossível conter o vômito. Barcos, corações, crucifixos, mercedes, facas, tumblios dissimulados postos pra fora sob um grito mudo e uma intensidade fraterna. (http://bit.ly/ZKSCJB)

Por fim,ele diz de sua poesia:
A poesia não está irrita. Esconde-se naquilo de fosso/troço retalhado no corpo.Tecido anatômico/de pano:mamulengo/pro vário que sou/desvario que hei de ser devir…Continuo invento/da saliva apalabravada…

Ler Alexandre é ler sua costura de vida e de poetação da existência.


Tão desnecessária poesia/disrítmica e plantada nas palavras que não fui…

segunda-feira, 10 de abril de 2017

KOMBI: DO COMBOIO DA VIDA, À LITERATURA



Kombi, Kombosa ou Combinha, fez-nos, viver com ela a viagem, não só de deslocamento, mas da imaginação.

Criada nos anos 50, da expressão alemã “kombinationsfahrzeug” – “van cargo-passageiro”, projeto nacionalista de Hitler depois adaptado à sociedade moderna, do consumo, fisgou famílias-grandes, pequenas e comerciantes, mas seu fim chegou pela sua fabricante. Em seis décadas, dez milhões de unidades foram fabricadas, 1,5 milhão só no Brasil. Na versão clássica, transportava doze passageiros ou mais… Era também o tempo da contracultura, do lazer e da liberdade de ser e estar – entrevia-se no imaginário

Comecei a dirigir numa Kombi e, com ela, fiz viagens, acampei. Era um estúdio, uma sala, um restaurante e um motel, acima de tudo, um objeto de hospitalidade. Sem bancos, era o espaço. Os objetos adentrados a refaziam-na e ali os portáteis: rádio, radiola, máquina de escrever. Como cozinha – pastel, caldo de cana, pamonha –, como boteco ou bibliotecas, é o ínicio das vans.  Na semana era transporte, o escritório, lanchonete, aos fins de semana levava ao campo, praia ou às festas hippies. Sim, nos anos 60/70 a Kombi era sinônimo do movimento hippie e do psicodelismo. Foi um símbolo pop… que o diga S. Tomé das Letras, em Minas Gerais, Parati, no Rio de Janeiro, Pirenópolis e Trindade, em Goiás, Trancoso e Arembepe, na Bahia, Candeias, em Pernambuco, Atibaia, em São Paulo e tantos mais... não é, Mario Prata, Gabeira, Rita Lee e Raul Seixas ?

No cinema, as Kombis aparecem das chanchadas ao cinema novo, ou mesmo, dos anos 70 a 90, como viatura da Polícia. Na TV, deu-se o mesmo.

Na literatura ela aparece em gerações de escritores. Vejamos:

Com Drummond ela aparece num conto, “O Assalto”: “(…) Janelas e balcões apinhados de moradores, que gritavam: — Pega! Pega! Correu pra lá! — Olha ela ali! — Eles entraram na Kombi ali adiante! — É um mascarado! (…)” http://bit.ly/1cz2nAp

Também com Rubem Braga, em “Berço de Mata-Borrão”: “Perguntei então se a Santa Casa se encarregava de pegar o corpo e levá-lo para o Crematório de São Paulo e como seria feito o transporte. Em uma Kombi, responderam; a não ser que eu combinasse o transporte com alguma empresa aérea. (…) Respondi que estava em Ipanema, e então o homem disse que de Kombi o transporte para São Paulo ficaria em 35 cruzados.” http://bit.ly/1gmyHdg


Fernando Bonassi: “Tem alguém embaixo de uma Kombi na Radial Leste. É logo cedo numa terça-feira que vai se perder. Nem se forma congestionamento. Por dentro do carro, as pessoas percebem tarde.” (F. Bonassi, 100 Histórias Colhidas na Rua)

E o cearense, aloprado, hoje neste sudeste, Xico Sá nos fala do amor e engata em  “Da pontuacão  amorosa...”,  na revista  Germina. Com a metáfora da Kombi, o amor, se é o  amor, não se acaba de forma civilizada. (…) O fim do amor exige uma viuvez, um luto(…). Mas vamos ficando por aqui, pois ja derrapei na curva da auto-ajuda, como uma Kombi velha na Serra do Mar… e já já descambarei(…)” http://bit.ly/JbIlSf


domingo, 2 de abril de 2017

Uma escritora alarmante que desvenda a história

BY Rev Brasileiros


Luzilá Gonçalves Ferreira é explosiva ao escrever, arrebanha ventos, destila palmeiras e canta o tempo como se viola fosse. São cordas afiadas, onde seu delírio de criar espoca como as marés do tempo. Leitora fina, prova do sabor de onça da palavra. Cedo, aos dez anos ja devora Dostoievski, Jean-Christophe de Romain Rolland, o Sparkenbroke de Charles Morgan e as Cartas a um jovem poeta, de Rilke.
Nascida em Garanhuns, logo cedo veio para o Recife, onde fez a graduação em Letras, iniciou a pós e pulou para o mundo através dos livros e estadas em países outros. Fez doutorado em Estudos Literários na Universidade Paris VII, morou dez anos na França e quatro na Argentina, em Buenos Aires. Mas, no resto do tempo, é o Recife mesmo cidade de sua eleição e coração, nervos e escrita.
Professora da UFPE, nos cursos de graduação e pós-graduação em Letras, e escritora, Luzilá tem 44 livros publicados, entre contos, romances, biografias, ensaios, individualmente ou como co-autora. Possui também muitos artigos em periódicos nacionais e estrangeiros, vários prefácios e participa da Academia de letras de Pernambuco, em que se destaca pelo volume da obra e tessitura contemporânea da escritura.
Luzilá Gonçalves Ferreira foi premiada na IV Bienal Nestlé de Literatura, em 1988, com o romance Muito Além do Corpo. Em 1994, recebeu o prêmio Joaquim Nabuco, da Academia Brasileira de Letras, com Os Rios Turvos. Venceu ainda o prêmio Lucilo Varejão, da Fundação da Cultura da Cidade do Recife, com a obra No Tempo Frágil das Horas, de 2003. Voltar a Palermo foi finalista para o Prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, em 2002.

Em 1982, a autora tornou-se conhecida nacionalmente pelo seu trabalho de quase biografia sobre Lou Andreas Salomé, com Cinzas no jardim (Coleção Encanto Radical, São Paulo, ed. Brasiliense, 1982)

Fala Gonçalves:

"LouAndreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre - e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca. Sua exploração em todos os possíveis. Isto que requer a fruição intensa e incessante de coisas e pessoas que nos cercam, de modo que o mundo exterior em nós penetre e a nós se incorpore. Pois a vida, como o dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, "está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso”…”Antes mesmo do seu encontro com Rilke, Louise von Salomé já intuía essa verdade: desde muito cedo encontramos nela um grande apetite de aprender e de amar - e o objeto de sua atenção podia ser a psicanálise, a curtição de uma paisagem, de uma flor, de um esquilo na floresta ou de um corpo amado.” http://bit.ly/1ihjbxi 
Depois desta ela mergulha em outras biografias, mas esta a torna conhecida dentro e fora do país.

Na rede da história, Luzilá dá belas bordoadas, reescrevendo ficcionalmente em seus romances biográficos. Assim ocorre em Rios Turvos, de 1993 (em sua sétima edição), em que a escritora exacerba, caminhando entre história e ficção, e nos ensina literatura, à medida que nos aponta os clássicos, entremeando-se, intertextualmente, com a história de Bento Teixeira.

Bento Teixeira (1561-1600) escreveu o clássico “Prosopopéia”, épico da literatura brasileira. Pendem dúvidas quanto ao seu nascimento, se em Porto, Portugal, ou em Recife. Seus pais eram cristãos-novos, marca que carrega até o desfecho trágico de sua vida, envolvido numa trama de paixão, que o leva à prisão e à morte.
A autora narra a relação amorosa do português Bento Teixeira com a brasileira, do Espírito Santo, Filipa Raposa, com desfecho trágico: ela, sua mulher, o denuncia ao Tribunal do Santo Ofício, sob acusações de ser judeu e mau cristão. Nos entrecortes do roteiro, a autora desfila com a poesia clássica, que vem de Ovídio, como pano de fundo para os encontros de Bento Teixeira com a amada; Camões, de Sôbolos Rios… e dos breves enganos: “Do amor não vi senão breves enganos”; aparecem também os poemas encomiásticos (de Bento), na Prosopopéia, poema escrito em Pernambuco.
O amor é um tema insistente em sua obra, bem como a posição da mulher no cenário brasileiro. O amor que Luzilá compõe não é o amor banal, mas a trama sob a qual emoldura vidas e faz histórias do homem como fonte de articulações políticas cotidianas, tecendo o contexto histórico-social.
Isso está posto em Rios Turvos, 1993, Voltar a  Palermo, 1993, Muito além do corpo, 2003, A Garça mal ferida,1993, e Illuminata, 2009. Todos, à exceção do segundo, se passam em séculos passados e trazem a trama de amor, desventuras e personagens históricos.
Ampara-se a autora no seu estilo poético, que desenha e redesenha o poema. Sem fastio e sem adornos exagerados, ela decora a sua poesia mansa. Vejamos:
“um silêncio equívoco esticava os fios do telefone, feito açúcar de alfenim”, .. “em silêncio nos amamos por séculos (...) estranha foi a volta para ti, depois daquele encontro com ele” (p. 57) “deve ser, teu rosto resplende”, responde ele - Muito além do corpo (p. 59) apud Moisés Neto http://bit.ly/KtJXXu
e continua:
“O corpo é metáfora de nós, sinal evidente de algo mais profundo (...) meu existir efêmero e eterno” (p. 60) Muito além do corpo http://bit.ly/KtJXXu
Luzilá é uma poeta e tanto. Na sua escritura, convergem poetas, de Ovídio a Bento, Cecília, Drummond e senão Clarice, isso tudo em Muito além do corpo.
Agora vamos à própria escritora, que nos recebe para a entrevista, enquanto damos motes para que a mesma desfile sua palavra:
Literatura e contemporaneidade..
Há uma grande diversidade de temas e inspirações, na literatura brasileira atual.O que se poderia chamar de literatura regionalista – que alguns autores rejeitam, como se em outras grandes literaturas não existissem escritores essencialmente ligados a sua terra, penso em Jean Giono, em Francis Jammes, na França, por exemplo, em um certo Mauriac. Essa nossa literatura é de alto nível, como mostram Raimundo Carrero, Ronaldo Brito. Quanto á literatura de caráter mais, digamos, urbano,  é quase impossível acompanhar o número de autores novos que se tem espalhado pelo Brasil e generalizo, tenho a impressão de que, como disse alguém, estão todos escrevendo o mesmo livro.
O ato de escrever…Uma explosão..
- Explosão para escrever? Não houve exatamente explosão, mas um desejo sempre crescente, desde ainda menina, de um dia chegar a escrever livros. E levei anos para me decidir a ser uma escritora, o que nem bem sei ainda se sou, apesar de nove livros de ficção publicados, três biografias,organização de três antologias de literatura em Pernambuco e umas tantas colaborações em obras coletivas.
Como está a literatura …
- Há modismos sim em certas formas discursivas. Penso em alguns autores que organizam o texto, separando-o em pequenos capítulos ou linhas soltas, como se isso fosse uma grande novidade. Mas sem nada de original no  conteúdo. Para falar verdade: acho que há muita coisa ruim sendo publicada, divulgada por esse nosso pais, como sendo boa  literatura., muitos equivocos.
A literatura e a memória..
-Toda literatura não pode ser senão o próprio autor, que se derrama no texto implícita ou explicitamente, como poderia ser de outro modo, se escrever é buscar, se aproximar daquela fala que nos diria e que finalmente nunca alcançamos? Acho que poucos escritores, e penso em nossa literatura e na literatura mundial, conseguiram escrever o grande livro com que sonharam ou sonham. Respondendo a sua pergunta:  meus leitores dizem que meus livros são a minha cara.

O Romance histórico…
Com exceção de Muito além do corpo, meu primeiro roma’ce publicado, tudo o que escrevo parte da História, relatada por historiadores ou imaginada, recriada.. O modo como os seres humanos construíram as comunidades, através dos tempos, como levaram adiante projetos de vida para si ou para outros, me fascina. Nesse sentido, a história de Pernambuco é um celeiro de personagens e sugestões, e nela, sobretudo, as mulheres: Felipa Raposa vivendo em Olinda na época da Inquisição, Anna Paes dilacerada entre a admiração pela  Holanda e seu amor pela terra, nos tempos de Nassau,  a Baronesa de Vera  Cruz, dividida entre a trepidante Paris do século XIX e a melancolia de seu engenho que ela nunca saberia administrar, Iluminata, culta e solitária, buscando a si própria e ao amor, num Recife que se urbanizava, são tipos vicários de mulheres, escrevendo sua própria história e pelas quais ou o que sou.  Escrever suas vidas foi um belo desafio, pois, como saber exatamente  que sentia e pensava, como amava, uma mulher de outras épocas? Leio e pesquiso para isso: livros de História, testamentos , jornais, busco encontrar traços de vida, nos olhares tristes de mulheres do passado em fotografias antigas.  E claro, há um pouco de mim nos retratos que faço delas, quando se transformam em personagens de romance, e até traços biográficos¨como no romance Voltar a Palermo, que se passa na Argentina, nos tempos da repressão, e onde vivi: Maria, professora como eu, tem muito de mim.

Seus aconselhantes..
Quanto a jeitos de pensar, de organizar o modo como sinto e escrevo, claro, há muitas influências, de que nem me dou conta, mas que certamente estão ai. Em autores do quais me sinto uma irmã, como Anton Tchekov, Katherine Mansfield, Emily Bronte, Lucio Cardoso, Mario de Andrade, Colette, Rilke, Anna Akhmatova, que sempre leio e releio, cada vez com maior prazer à medida que os anos passam.
O que escapa ou escapou da Literatura

Na literatura brasileira atual, que o grande público ainda não destacou – mas seria isso tão importante? – penso em Arlete Nogueira da Cruz, que fez com sua admirável Litania da Velha, um retrato de S. Luis do Maranhão, cidade que amo. Quanto a Gilvan Lemos, é sim um  injustiçado: um grande contista, premiadíssimo, que nos deu com O anjo do quarto dia um de nossos melhores romances, citado no jornal Le Monde, publicado em Paris na importante revista literária Caravanes. Com fiéis leitores no Brasil, mas poderia ser melhor reconhecido. Daniel Lima: meu amigo, meu professor na universidade e na vida:  roubei parte de sua obra, fiz publicar contra sua vontade, por achar que o Brasil lhe devia isso. E o prêmio Alphonsus de Guimaraes, que lhe atribuiu a Biblioteca Nacional provou que eu tinha razão.
Como fazer um apanhado de sua obra, sim, uma radiografia da mesma, por você ..
- Radiografia de minha obra? Eu diria, como dizemos por aqui: Vixe Maria! E eu sei?  Mas Tentando lhe responder: talvez eu tenha buscado, nesses meus mais de trinta anos de literatura, dar um testemunho do que um dia em meio da vida, uma mulher resolveu acrescentar uma pequena pedra à construção de um mundo que amou, seus homens e mulheres, seu bichos, suas plantas, e que eu fico danada por ter de deixar,hélas.
E para terminar  como poderíamos dizer do Brasil de hoje…

- E o Brasil? Odi et amo, como diria Horácio ...  Ovidio?Com todos os seus defeitos, oh quantos, carências, desigualdades, injustiças, desordens. Mas tanta esperança. Poderia viver em outros países mas é aqui  que escolhi viver e onde espero ter um tumulozinho no cemitério de Santo Amaro, que guarda a história da cidade do Recife desde 1859 (? ).